A Mediapart avança esta quarta-feira com novas revelações baseadas em documentos do Football Leaks que envolvem o dono do Monaco, novamente com Jorge Mendes no epicentro. De acordo com a publicação francesa, que pertence ao consórcio internacional de jornalistas que está a investigar o caso, Dmitri Rybolovlev deteve um fundo de investimento com sede no Chipre que comprou várias participações em passes de jogadores, muitos deles com passagem no próprio clube.

A boa relação entre Jorge Mendes e o Monaco não é desconhecida, não tivessem passado pelas mãos do superagente as transferências de jogadores como Falcão, João Moutinho, James Rodríguez ou Ricardo Carvalho para o principado. Os documentos agora revelados demonstram que há mais nessa ligação do que o que se conhece.

De acordo com os documentos do Football Leaks, o milionário russo dono do Monaco deteve um fundo de investimento com sede no Chipre, o Browsefish Limited, que comprou várias participações de passes de jogadores, numa altura em que os Third Party Ownerships (TPO) eram permitidas em todos os países, à exceção de França e Reino Unido. Apesar de ter sede no Chipre, o fundo estava ligado a Rybolovlev.

O fundo comprou, em 2014, percentagens dos direitos económicos de jogadores do Sp. Braga. No total, o Browserfish Limited chegou a deter participações dos passes de doze jogadores. De acordo com a Mediapart, "se deter passes de jogadores e dirigir um clube dificilmente parece compatível, o conflito de interesses agrava-se quando o jogador acaba por assinar pelo clube". Foi o caso de Fabinho, agenciado por Jorge Mendes.

Fabinho serve de "exemplo" para o sistema

A transferência de Fabinho exemplifica quase na perfeição a ligação existente entre Jorge Mendes e Dmitri Rybolovlev. De acordo com o Football Leaks, em janeiro de 2014, o Browserfish comprou 48,5% do passe de médio brasileiro, numa altura em que estava emprestado pelo Rio Ave ao Monaco, desde junho de 2013. Isto é, segundo o entendimento da Mediapart, o presidente do clube do principado detinha parte do passe de um jogador que jogava na sua equipa.

A 15 de maio de 2015, o Monaco avançou para a compra de Fabinho, duas semanas depois da interdição dos TPO por parte da FIFA. Mas, antes deste negócio, já a Gestifute tinha adquirido a percentagem do passe do médio na posse do Browserfish, a 1 de janeiro, para que o Monaco não comprasse um jogador que pertencia, alegadamente e em parte, ao seu presidente.

De acordo com as notícias então publicadas, o Monaco comprou Fabinho por uma verba entre cinco e seis milhões de euros. Mas a documentação enviada pelo Monaco à FIFA a oficializar o negócio indica que o negócio se fez por apenas... 10 cêntimos. Para além disso, a Gestifute, que detinha, à altura, 97% do passe, não aparece no documento enviado ao regulador.

Para a Mediapart, trata-se de uma operação de Jorge Mendes para disfarçar um TPO, numa altura em que estes já tinham sido proibidos. Igualmente vago foi o negócio da transferência de Wallace, defesa brasileiro ligado ao Sp. Braga mas igualmente emprestado ao Monaco e que também integrava a carteira de jogadores do Browserfish Limited.

De acordo com o Football Leaks, as vendas das percentagens de jogadores do fundo de Rybolovlev representaram, entre janeiro de 2014 e junho de 2015, 87% da atividade da Gestifute e geraram cerca de 6,85 milhões de euros em comissões para Jorge Mendes. A Mediapart avança ainda que o sistema implementado entre os dois homens forte do futebol do Monaco serviria igualmente para camuflar o pagamento de comissões a Jorge Mendes.

A Mediapart tentou contatar Dmitri Rybolovlev e Jorge Mendes, sem sucesso. A publicação francesa avança ainda que não consegue determinar se o Browserfish Limited ainda existe e, em caso afirmativo, se respeita as novas regras da partilha de passes.

Autor: João G. Oliveira