Vasco Mendonça: «Sinto que a cidade de Penafiel e os adeptos estão em sintonia com o nosso projeto»
Presidente da SAD quer criar bases sólidas para que os durienses regressem à 1.ª Liga e se consolidem num patamar elevado
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Quase a completar um ano à frente da SAD do Penafiel, Vasco Mendonça sente que o projeto está no bom caminho e traça um cenário ambicioso para o emblema duriense, até porque a parceria com o Deportivo da Corunha já começa a dar frutos. Em entrevista a Record, o presidente assume que a época de estreia não foi fácil, devido a um conjunto de circunstâncias, mas acredita que as bases estão a ser lançadas para que o Penafiel volte à 1.ª Liga. Aos 32 anos, Vasco Mendonça não promete que esse objetivo seja alcançado já na próxima temporada, mas acredita que, quando se concretizar, será para manter o Penafiel por muito tempo no patamar mais elevado do futebol português.
RECORD - A época que acabou não foi nada tranquila para o Penafiel, não é verdade?
VASCO MENDONÇA - Sim, foi uma época difícil. Entrámos muito tarde, a 10 de julho, entrámos no momento do falecimento do André Silva, então foi um conjunto de situações um bocado complicadas. Não tivemos quase pré-época, uma planificação do plantel. Chegámos com um plantel curto, com 13 jogadores, tivemos de correr um bocadinho atrás do prejuízo com decisões tomadas muito rapidamente. Cumprimos o objetivo, que era a permanência, mas foi um ano atípico, muito difícil. Não sabíamos o que esperar também, porque era um contexto novo. Nesse aspeto foi um ano positivo. Perceber como era a 2.ª Liga, a liga de futebol em Portugal, ainda que tivéssemos pessoas conhecedoras do futebol em Portugal, mas era preciso perceber o contexto, conhecer Penafiel, a cidade, as pessoas, a estrutura, o clube e a SAD. Foi um ano de muita aprendizagem e acho que criámos as bases para podermos desenvolver um projeto de longo termo.
R - Como é que se deu essa escolha do Penafiel?
VM - Surgiu da estrutura do Deportivo. Estávamos à procura de um clube ou de um projeto que fizesse sentido e que estivesse perto da Corunha. O Penafiel surgiu primeiro, porque era um clube sem dívidas, um clube com uma boa reputação devido aos anteriores proprietários, ou seja, um clube cumpridor, pagador, e um clube que vemos que tem um grande potencial para crescer e para desenvolver em conjunto com o Deportivo.
R - Disse que na época que acabou o grande objetivo era a permanência. O que podemos esperar da próxima temporada?
VM - Não vamos colocar objetivos a nível de classificação, porque vemos que cada vez mais, todos os anos, há muitos clubes a investir muito dinheiro na 2.ª Liga. A grande diferença, e face ao Penafiel que encontrámos, é que todos os dias o nível de profissionalismo vai aumentando em todas as áreas do clube e isso é que nos vai permitir construir algo para chegarmos ao patamar mais alto. Queremos criar bases não para subir e descer, como aconteceu ao Penafiel em 2014/15. Queremos criar um projeto em que a ideia é manter o Penafiel na 1.ª Liga o máximo de tempo possível. Não queremos o recorde da equipa com mais épocas na 2.ª Liga, não é o recorde que queremos para este novo Penafiel.
R - O facto de terem começado a época mais tarde comprometeu, de certa forma, os objetivos que tinham em mente?
VM - Sim, não esperávamos sofrer tanto este ano. Conseguimos a manutenção a duas jornadas do final, mas a nível desportivo não queríamos estar nessa situação. Sentimos que, a nível de futebol, jogávamos bem, apresentávamos um futebol positivo, queríamos jogar. É verdade também que o relvado em que nós investimos ajudou muito. E sentíamos também que as equipas gostavam de jogar futebol, que eram jogos muito positivos para a liga, nesse aspeto. Mas sim, toda essa falta de tempo, falta de planificação, porque tínhamos jogadores na mira, todo esse processo foi condicionado. Tivemos três semanas de pré-temporada, normalmente é muito pouco, e isso condicionou um bocadinho o decorrer da época.
R - Essencial para o projeto é o treinador José Manuel Aira, que se mantém no cargo…
VM - Tanto em relação ao treinador como à equipa técnica, estamos contentes com o trabalho que desenvolveram. É um treinador e uma equipa técnica que conhecem como é que funciona uma multipropriedade de clubes, ou seja, todas as sinergias que temos com a direção de futebol, tanto do Deportivo como do Penafiel. Também relativamente às equipas técnicas do Deportivo e do Penafiel, para essa sinergia era importante termos um treinador que que nos criasse as bases para cimentar estes processos que estamos a querer incutir. O José Manuel Aira e a equipa técnica vão seguir também nesta visão de ter um projeto sustentável, um projeto com bases e um projeto que possa durar.
R - Um treinador que surpreendeu, porque não era conhecido em Portugal, mas cujo trabalho acabou por ser apreciado…
VM - Sim, era um treinador que nós conhecíamos, porque jogou na equipa secundária do Deportivo da Corunha. Obviamente, o nosso diretor desportivo conhecia-o e era importante, nesta fase inicial de sinergias e de processos, haver uma facilidade de comunicação, pelo facto de falarem os dois espanhol. Foi um risco calculado. Acho que foi uma decisão muito pensada, tivemos várias reuniões com ele, várias entrevistas, estamos contentes com o seu trabalho.
R - Em termos de formação do plantel para a próxima época, como é que se está a desenrolar?
VM - A época passada foi muito importante também para perceber que tipo de jogadores queremos, como é que podemos estruturar o plantel, o número de jogadores… Vamos ter uma equipa sub-23, que nos vai ajudar também um bocadinho a reduzir o número do plantel principal e poder ter jogadores que possam subir dos sub-23 à equipa principal. Parte do projeto é um projeto de formação, queremos apostar em jogadores jovens, que possam crescer. E também sabendo o contexto da 2.ª Liga, obviamente, é preciso experiência na 2.ª Liga. É um futebol mais físico. É um equilíbrio entre a juventude e a experiência.
R - Vai manter a base do plantel da época passada?
VM - Não haverá muitas alterações. Vamos reforçar áreas chave do plantel. A ideia é um bocadinho dar um passo em frente nos objetivos. Com isso não quero dizer que pensamos na subida, porque é uma liga muito competitiva. Nós demo-nos melhor com os adversários de cima da classificação do que com os de baixo. Então é um bocadinho isso, mas a base mantém-se, até porque são jogadores que conhecem bem Penafiel, queremos incutir aos novos esses valores que têm a cidade e o clube, e achamos importante também manter essa base.
R - Não quer, de certa forma, também criar falsas expectativas aos adeptos?
VM - As expectativas geram-se por si próprias, por haver por trás um clube como o Deportivo da Corunha, que subiu agora à 1.ª Divisão espanhola. É uma montra muito grande. Encontrámos o Penafiel muito parado no tempo, com uma estrutura muito pequena, pouco profissional, e achamos que agora o dinheiro ou o investimento serão mais para infraestruturas, tal como fizemos com o relvado híbrido. Vamos olhar agora para o campo de treinos da equipa principal, vamos ter o campo da formação do clube, o ginásio novo, ou seja, queremos oferecer as melhores condições aos nossos atletas. Neste momento, não queremos colocar metas a nível de classificação.
R - O facto de o estádio ser municipal é um entrave a quererem, por exemplo, modernizar instalações ou há uma boa relação com a Câmara que permita fazer algumas alterações estruturais?
VM - Temos uma excelente relação com a Câmara. Neste momento, estão a fazer obras de melhorias na bancada mais antiga, onde estão os balneários. Com o inverno tivemos ali alguns problemas, mas temos uma relação muito próxima com a Câmara, com o presidente da Câmara também, há uma boa conexão, porque queremos reformar toda essa zona. Estão a construir um pavilhão municipal ao lado do estádio. Há uma relação muito boa com a Câmara e eles estão conscientes daquilo que queremos para o Penafiel e daquilo que queremos proporcionar aos nossos adeptos, que é uma melhoria das condições no estádio.
R - As melhorias no estádio e nas infraestruturas também são uma forma de cativar os sócios e chamar mais adeptos?
VM - Isso foi algo que também vimos, ou seja, achamos que Penafiel e toda a região do Vale do Tâmega e Sousa têm um potencial muito grande. Quando chegámos, tínhamos uma média muito baixa de espectadores no estádio. Estamos a conseguir aproximar o clube da cidade, com várias ações na cidade, nas escolas, universidades, com a formação, e batemos recordes de assistência em cada jogo. É uma ligação muito importante que estamos a querer criar com as pessoas de Penafiel e com os adeptos.
R - Sente que os sócios corresponderam a esta nova ligação?
VM - Acho que sim, também porque o tema do relvado e do investimento de um milhão de euros foi importante para toda a gente entender a seriedade do projeto. Se calhar, muitas SAD poderiam investir em plantéis ou em jogadores, mas nós fomos realmente à base. Mantivemos as pessoas que estavam na estrutura e pouco a pouco fomos melhorando, profissionalizando as pessoas que estão no clube, todo esse desenvolvimento das pessoas que estavam antes também é importante para poder transmitir a mensagem do que estamos a fazer. Não gostamos muito de expor publicamente o que fazemos e o que não fazemos, mas sinto que a cidade e os adeptos estão em sintonia com o nosso projeto. A todos os jogos que fui fora vi que os adeptos do Penafiel têm uma ligação muito boa com os adeptos dos outros clubes, são adeptos incríveis.