Emílio Peixe apela a uma maior aposta nos jovens jogadores portugueses: «Deveria haver mais coragem»
Ex-internacional luso espera que os clubes não desaproveitem alguns talentos da sua formação
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O talento dos futebolistas portugueses é transversal a todas as gerações, mas requer uma aposta mais corajosa dos clubes da Liga Betclic, cuja edição 2026/27 começa na sexta-feira, apela o ex-internacional luso e selecionador jovem Emílio Peixe.
"Eu sei que, até na transição dos jovens [para o escalão sénior], é difícil conseguir todas as condições e estar preparado para chegar, ver e vencer. Passei por isso como jogador, mas creio que deveria haver mais coragem e implementar essa aposta na política dos clubes, mesmo correndo o risco de não se ganhar alguma taça nacional", analisou à agência Lusa o antigo médio, de 53 anos, que alinhou nos três 'grandes' e comandou as seleções jovens em dois períodos (2007-2022 e 2024-2026), dos sub-15 aos sub-20.
Segundo o Observatório do Futebol (CIES), entre 50 escalões principais do mundo, a Liga Betclic foi em 2025/26 a terceira com mais aposta em estrangeiros (72,9%) e menor utilização de jogadores que passaram, pelo menos, três temporadas nos seus clubes entre os 15 e os 21 anos (5,3%).
"Temos tido gerações de jovens com grande qualidade e isso confirma-se em muitos jogos. O simples adepto consegue comparar o desempenho de um jovem atleta, que tem toda a fome do mundo para vingar neste mundo muito difícil, com o dos futebolistas que implicam contratações milionárias, mas que várias vezes não justificam o que foi investido", disse o campeão mundial de sub-20 em 1991 e de sub-16 em 1989 pela seleção portuguesa.
Sabemos que não é possível ser campeão nacional, ganhar uma Liga Europa ou até estar numa final da Liga dos Campeões só com jogadores da formação...
Rejeitando que as oportunidades de projeção sénior tenham de ser obrigatórias para quem sai das camadas jovens dos clubes, Peixe lembra que os lusos "não deixaram de ter qualidade", mesmo que, ao contrário de outros países, sobretudo europeus, o contexto competitivo "não tenha a mesma força nem obrigue sistematicamente a uma evolução tão rápida".
"Qualquer equipa portuguesa que esteja nas provas europeias traz problemas aos adversários, pela sua organização e pela qualidade dos jogadores e treinadores. Sentimos que os clubes com grandes estruturas e capital têm muita dificuldade para nos ultrapassar. Alguma coisa quer dizer. Somos um país pequeno, mas continuamos a ter muita qualidade", admitiu.
O antigo médio, que se estreou como sénior pelo Sporting e foi bicampeão nacional pelo FC Porto em 1997/98 e 1998/99, rumo ao inédito penta dos dragões, vê os principais clubes lusos a crescerem em investimento, "até porque também já vendem melhor", mas em risco de desaproveitar alguns talentos da sua formação e a eventual valorização desportiva e financeira.
"Obviamente, sabemos que não é possível ser campeão nacional, ganhar uma Liga Europa ou até estar numa final da Liga dos Campeões só com jogadores da formação, mas terá de haver essa coragem dos clubes. Não digo que seja em todos os jogos do campeonato, mas há competições nacionais em que deveria haver uma maior aposta nos jovens", salientou.
Peixe estende os efeitos dessa política sobre as equipas B, sub-23 e sub-19 dos clubes ao futuro da seleção principal, que "pode não ser tão forte daqui a 10 anos como foi nestas décadas em que Portugal foi elogiado".
"Lembro-me do Renato Sanches, que era júnior de segundo ano, fez connosco em novembro [de 2015] um torneio de apuramento para o Europeu de sub-19 e em junho [de 2016] foi campeão da Europa", traçou.
Além de sensibilizar para a aposta na formação, o ex-selecionador jovem pede maior ponderação aos agentes do futebol, em função das relações tensas entre clubes, árbitros e alguns organismos e associações de classe.
"Acho que é cultural. Temos treinadores e jogadores nas melhores equipas e dirigentes a tornarem-se decisivos, mas não vejo a arbitragem portuguesa com esse reconhecimento interno e externo. Apelava à calma. Todos sabemos que o papel do árbitro não é fácil, mas eles também têm de fazer por si e pelo nosso futebol", concluiu.