O Benfica regressa amanhã a Portimão, quase 30 anos depois de ali ter realizado o último encontro para o campeonato. Depois disso, o emblema algarvio voltou a ser anfitrião das águias, mas no Bonfim (1990) e no Estádio Algarve (2010).

"Um marco histórico desportivo", rejubila Isilda Gomes, líder da autarquia de Portimão, que em janeiro passado foi eleita Cidade Europeia do Desporto 2019. Por isso, a presença dos tetracampeões nacionais vem dar "cor e brilho" à distinção. O duelo de amanhã marca, por outro lado, o reencontro entre dois velhos ‘aliados’. Gaspar Ramos, na altura chefe de departamento de futebol das águias, lembra-se que Benfica e Portimonense, graças ao seu histórico presidente, Manuel João, tinham uma "luta comum contra Pinto da Costa".

Na década de 80 do século passado, não havia emails e as comunicações não eram tão fáceis como agora. "Tinha de fazer as denúncias nos locais próprios, como o Conselho de Arbitragem. Graças a isso, ganhámos muitos campeonatos, porque tinham tudo controlado." O antigo dirigente do encarnados lembra que Manuel João era "um apaixonado pelo Portimonense", concordando, por isso, que nesta luta havia "duas frentes". Apesar do alvo comum, o algarvio faz questão de separar as águas. "Eu defendia o meu clube, os outros os deles."

Na altura do jogo de 1988, José Carlos e César Brito estavam emprestados pelo Benfica, no âmbito das contratações de Pacheco e Augusto. Volvidos 30 anos, a conjuntura é diferente. A SAD portimonense tem como acionista maioritário Theodoro Fonseca, antigo empresário de Hulk. Isto sem esquecer as transferências de jogadores, como é o caso desta época. Rafa Soares, Fede Varela e Galeno rumaram do FC Porto ao Portimonense. Paulinho fez o percurso inverso em janeiro. Também já houve aproximação ao Sporting, que emprestou Rosell e contratou Lumor. O que não mudou foram as dificuldades que o Portimonense impõe ao Benfica, como é exemplo o jogo da primeira volta – a equipa de Vítor Oliveira esteve a ganhar até aos 60 minutos.

Manuel João torce pelos da casa

O antigo líder portimonense, em cujo mandato o clube chegou às competições europeias, assume ser sócio dos dois emblemas. Mas não tem dúvidas por quem vai torcer. "Se vou ter o coração dividido? Sou de Portimão e já fui presidente do Portimonense, logo, este clube estará em primeiro lugar", assevera quem costuma deslocar-se ao Estádio da Luz. Manuel João acredita que a equipa de Rui Vitória aprendeu a lição no encontro da primeira volta. "Vai jogar de forma diferente", vaticina.

Receitas gordas com as águias e um ausente

Os bilhetes estão esgotados e o Municipal de Portimão vai ter amanhã a maior assistência da temporada, a fazer recordar os velhos tempos, se bem que no encontro daquela tarde de setembro de 1988 estavam 19 mil espectadores, que desafiaram os 35 graus que se faziam sentir. "As maiores receitas eram com o Benfica", recorda Manuel João. Quem vai estar ausente amanhã é Zezé Camarinha, o algarvio que ganhou notoriedade ao participar em ‘reality shows’. Embora seja adepto do Portimonense, vai ver o pela TV. "Estes são jogos especiais, uma festa que se prolonga até depois do final. Antes ia sempre, mas há sete anos que deixei de ir, devido a uma promessa feita por uma pessoa do clube que nunca foi cumprida", explica.

Vata saltou do banco para decidir

É preciso recuar quase 30 anos para encontrar a última vez que o Benfica se deslocou a Portimão num jogo para o campeonato. Tal sucedeu a 11 de setembro de 1988, na quarta jornada, num desafio de boa memória para as águias, que venceram (1-0), com um golo do angolano Vata.

O avançado começou o jogo no banco, mas foi lançado por Toni, rendendo Pacheco, ao minuto 65, e garantiu a primeira vitória do Benfica nesse campeonato: aos 76’, deu o melhor seguimento a um livre de Chalana, com um disparo de cabeça.

Lima estreante

Numa temporada em que o Benfica acabou por se sagrar campeão nacional, foi no reduto do Portimonense, orientado por Manuel Cajuda, que Lima se estreou com a camisola das águias. Contratado ao Internacional Porto Alegre, o brasileiro, "ainda pesado e sem ritmo", segundo análise de Record, cabeceou duas vezes ao lado.

Bafo no pescoço em duelo duro

O jogo de há 30 anos colocou frente a frente José Carlos (lateral-direito emprestado pelo Benfica) e Pacheco, extremo-esquerdo contratado pelas águias ao Portimonense. Um "duelo duro", mas com muito respeito, entre dois jogadores que viriam a ser companheiros na Luz.

"O Pacheco era muito rápido e bom tecnicamente. Quando recebia a bola de frente, era perigoso. Mas não gostava de sentir o bafo no pescoço. Sentia dificuldades quando recebia a bola de costas", lembra José Carlos. Natural de Portimão, Pacheco sentia-se em casa. "Tinha sempre os meus amigos e família nas bancadas e, mesmo estando noutro clube, era muito bem tratado."

Autarca confia na segurança

Isilda Gomes, presidente da Câmara Municipal de Portimão, assegura que a cidade está pronta para acolher o jogo que irá colocar frente a frente a equipa algarvia e o Benfica. "Está tudo preparado e, a nível de segurança, todas as medidas serão tomadas. A SAD, a FPF e a PSP é que tratam disso, mas acredito num bom ambiente", assegurou a edil, dando conta ainda de que uma rua adjacente ao estádio estará fechada.

Isilda Gomes revelou também que irá assistir ao encontro. Com o "cachecol do Portimonense ao pescoço".


Autores: Nuno Martins e Valter Marques