O NEGÓCIO da transferência de Esquerdinha para o FC Porto levou, há dois anos, o avançado Artur para o Vitória da Bahia (Brasil), onde tem sido feliz e prepara nova época. Mas o veloz esquerdino não deixa de acompanhar o futebol português via televisão e conhece bem os valores em confronto no "derby capital".

Considera Boavista e FC Porto em igual medida, de ambos guarda gratas recordações e, por isso, prefere não apontar um provável vencedor, mas analisa os factores que poderão fazer o resultado.

Nos dragões destaca a grande experiência de alguns elementos e a tendência para se darem bem em grandes momentos. No Boavista a mística muito própria de jogar no Bessa e o desejo em se aproximar cada vez mais dos ainda crónicos grandes do futebol português.

Acentua de tal forma a tónica do equilíbrio para este confronto que aposta que serão detalhes de valor individual a poderem fazer a diferença.

A nossa conversa com Artur começou pela sua carreira na Bahia e, pelos vistos, não poderia encontrar-se melhor: "Estamos em pré-temporada e sinto-me muito bem. O conjunto é forte e promete uma grande época. Estou confiante."

Acompanhar o campeonato português é quase uma tarefa de agenda para o avançado: "Vi os resumos da última jornada e estou por dentro da importância do Boavista-Porto. Bom, trata-se de um ‘derby’ sempre muito quente, mas, tal como felizmente tem sido norma nos últimos anos, este é muito especial. Fico imensamente satisfeito pelas duas maiores equipas do Porto estarem a discutir a liderança no campeonato."

É muito difícil para Artur perspectivar embates entre Boavista e FC Porto, como se pode perceber pelas suas palavras: "O Boavista foi o meu primeiro clube em Portugal, foi o principal responsável pela minha projecção. Todo o mundo me ajudou muito. Mas foi igual no FC Porto, embora um pouco mais especial pelos títulos que ganhei (três campeonatos, três Taças de Portugal e uma Supertaça). Deixei grandes amigos nos dois lados. Por isso, tentarei analisar o confronto numa base puramente futebolística.

O FC Porto tem uma estrutura muito forte montada há muitos anos. Tem uma dinâmica de vitória muito enraizada e um plantel com jogadores de muita qualidade e experiência. O FC Porto já discute o título há muitos anos e por isso está mais habituado do que o Boavista a situações de pressão.

O que falta ao Boavista é assumir-se como um dos grandes do futebol português. Nos últimos anos tem crescido muito e, sinceramente, acho que já tem condições para se assumir como um candidato ao título."

Mantendo-se na análise ao "derby": "O valor das equipas é muito equilibrado e acredito que poderão ser detalhes individuais a ditar o vencedor. Não tomo partido. Que vença o melhor. Seja quem for, a verdade é que ficarei satisfeito."

Portugal e presidentes

Actualmente com 31 anos, Artur ainda não admite um final de carreira a breve prazo e até acrescenta: "Muita gente me pergunta se penso em voltar a Portugal e a verdade é que penso nisso. Se surgir a oportunidade, aproveitarei. Passei oito anos maravilhosos em Portugal e tenho dois filhos nascidos aí. É, portanto, natural o meu apego a esse país, sobretudo à cidade do Porto."

Dos muitos amigos que Artur fez no nosso país, alguns deixaram marcas especiais: "Nos dois clubes, dos presidentes aos tratadores da relva, todos me tratarem muito bem. Tenho um enorme apreço por Valentim Loureiro. Era o presidente do Boavista quando lá joguei e ajudou-me imenso, sobretudo quando da minha transferência para o FC Porto. Mas, de igual maneira, o presidente Pinto da Costa e o senhor Reinaldo Teles foram espectaculares comigo."

Coimbra inesquecível

Das muitas recordações que ficaram a Artur dos "derbies" entre Boavista e FC Porto, de um e outro lado, a mais marcante foi o golo que marcou a Vítor Baía em Coimbra, em 92/93, e que valeu o empate.

"Nunca marquei ao Boavista pelo FC Porto. Uma curiosidade que não me deixa de consciência pesada. O ‘derby’ de que me recordo melhor foi o realizado em Coimbra, porque marquei um golo decisivo, mas também muito bonito, contra adversários de grande categoria. Recordo que foi um jogo disputadíssimo e que o FC Porto começou a ganhar com um golo do Timofte. A coisa estava muito preta para o Boavista, mas a cinco minutos do fim arranquei em velocidade, passei pelo Fernando Couto e meti a bola no meio das pernas do Vítor Baía fazendo o empate com que acabaria o jogo. Em termos pessoais, esse momento foi muito bom."

Uma equipa memorável

Comparar o valor do actual plantel do FC Porto ao plantel do seu tempo nas Antas, também não é fácil para Artur, que entrega aos resultados a decisão. Explicando: "Não sei dizer qual será a equipa mais forte. Do meu tempo para agora saíram muitos jogadores de grande qualidade. Sei que o FC Porto se reforçou bem mas é difícil repor a qualidade de alguns, como Jardel ou Zahovic. Conheço o Pena e sei que é muito forte e um bom reforço para uma equipa que manteve a sua espinha dorsal. O que posso dizer é que esta equipa do FC Porto ainda tem de provar o que vale em resultados. A do meu tempo, que chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, era muito forte. Conseguiu títulos e deixou exemplos de força com alguns resultados, como os 5-0 na Luz para a Supertaça."

Uma das transferências mais caras dos dragões

A transferência de Artur do Boavista para o FC Porto, em 96/97, representou, na altura, um valor elevado para os dragões. Pinto da Costa acordou com Valentim Loureiro, o presidente boavisteiro de então, uma verba de 150 mil contos e ainda a cedência de dois jogadores portistas, cuja escolha, dentro das limitações dos dragões, acabou por recair em Jorge Couto e Latapy. Cerca de um mês depois, o FC Porto contratou Mário Jardel por cerca de 750 mil contos.

Tendência para surgir nos grandes momentos

Artur nunca foi regularmente titular nas três épocas ao serviço do FC Porto. Foi, porém, daqueles jogadores com tendência para surgir nos grandes momentos, resolvendo o jogo a favor da sua equipa.

Além do tal jogo em Coimbra, destaca-se a partida que resolveu pelo FC Porto com o Benfica nas Antas na época 96/97, em que, vindo do banco, fez os dois golos do triunfo (2-0). E, ainda, o fabuloso golo em San Siro, diante do Milan para a Liga dos Campeões, dando mote para um resultado final histórico de 3-2 a favor dos dragões, num encontro em que ficou anunciado o fenómeno Jardel (dois golos).