Um homem bastou para colocar o Feirense na rota dos bons resultados. Nuno Manta ainda é um desconhecido da maioria dos adeptos do futebol português e Record partiu à descoberta do jovem treinador. Depois de ouvir alguns jogadores que com ele trabalham ou trabalharam, e treinadores que partilharam o balneário dos fogaceiros, uma ideia ficou bem vincada: Nuno Manta é um motivador por excelência. Viciado em futebol, atento ao mais pequeno pormenor do jogo, é o lado psicológico do plantel que ataca em primeiro lugar. E foi assim que tirou a equipa dos últimos lugares…

José Mota foi despedido em dezembro e, de repente, o Feirense começou a ganhar jogos. "Ele aferroa os jogadores, dá-nos uma força incrível. Trabalha e controla as emoções dos jogadores. Passa-nos vídeos motivacionais e dá-nos exemplos de grandes referências do futebol. Mas se for preciso, também vira o balneário... Quando a equipa não estava com ele voava tudo à nossa volta", recorda Renato Andrade, antigo capitão da formação fogaceira.

Nuno Manta era assim nos juniores e também o foi em 2012, quando substituiu Bruno Moura na equipa principal. "Foram dois jogos, duas vitórias. Era a estreia dele nos seniores. Passou-nos a mística do clube, disse que ninguém podia ganhar na Feira, repetiu que éramos melhores que qualquer adversário. Seguramente é o que está a fazer esta época", afirma com convicção Jorge Gonçalves. "Defensivamente trabalha muito bem as equipas e diz-nos que, a qualquer momento, podemos ir à frente e matar o jogo. Sempre que fala aos jogadores fá-lo de forma segura e assertiva. O sucesso dele não me surpreende", finaliza o avançado.

Comportamento proibido

Aos 38 anos, Nuno Manta soma nove jogos e perdeu apenas um, em Alvalade. O seu antigo adjunto Bruno Magno ajuda-nos a perceber um pouco melhor o que terá mudado desde a saída de José Mota. "Ele desculpa que se falhe um passe, uma receção e até um golo de baliza aberta, mas nunca que se perca uma bola e que não se tente recuperá-la. Isso é matá-lo! Com ele, só joga quem tem exigência máxima. Defende a raça à Feirense. Os jogadores têm sempre de dar o máximo", enumera, revelando que Nuno Manta é um apreciador do futebol sul-americano, nomeadamente do chileno.

Homem da casa, também Henrique Nunes privou com o novo menino bonito da Feira: "É um grande conhecedor do treino, tem bons métodos e é muito exigente. Esta é uma das suas principais marcas. Exige o máximo quer taticamente quer na entrega dos atletas. Lutou muito para chegar aqui e torço para que faça história mantendo a equipa na 1ª Liga."

Apesar do ar sério, Nuno Manta entra na peladinhas e deixa marcas pelos... carrinhos que faz. Mas é no banco que quer vingar. Nos sub-19 ficou célebre uma frase de um atleta: "Jogar junto do banco onde ele está até parece ‘doping’, tal é a força que nos transmite."

Um ladrão de ideias

Bem antes de chegar à equipa principal do Feirense, Nuno Manta devorava livros e passava horas e horas a ver futebol. É assim que, diariamente, quer continuar a aprender para ser um treinador melhor. Diz quem o conhece que não tem uma ou várias referências até porque, como disse Fabio Capello e reforçou Pep Guardiola, "o melhor treinador é um ladrão de ideias".

Adepto do pragmatismo, Nuno Manta pede com insistência que as suas equipas sejam sempre equilibradas, principalmente porque quem não sofre nunca perde um jogo. Defender bem exige boas transições, aspeto do jogo que o treinador valoriza muito. Dentro e fora de campo, todos os detalhes contam. Nuno é minucioso, fala pouco, mas sempre que o faz é cirúrgico.

Autor: Ricardo Vasconcelos