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Pinga foi o primeiro génio eterno da história do FC Porto

O ARTISTA FABRICADO PELAS ESCOLAS DO MARÍTIMO

ERA uma vez um madeirense franzino, mas cheio de talento, nado e criado nas escolas do Marítimo. Nascido a 30 de Setembro de 1909, Artur de Sousa, Pinga para a eternidade, tinha 21 anos quando deu o passo que havia de transformar a sua vida e, em certa, medida o futebol português: transferiu-se para o FC Porto, mudança envolta em polémica nunca totalmente esclarecida e que fez azedar as relações entre os dois clubes.

Pinga entra na história como o primeiro génio eterno do FC Porto, superando logo o peso de Valdemar Mota, representante azul e branco nos Jogos Olímpicos de Amesterdão (1928), não sendo fácil definir, a esta distância, se Hernâni Ferreira da Silva e Fernando Gomes o conseguiram ultrapassar posteriormente em importância e significado.

Estreia na selecção

Ainda jogador do Marítimo fez a estreia na selecção nacional, frente à Espanha, numa partida em que a AF Lisboa recusou ceder jogadores sob a sua jurisdição. Foi a 30 de Novembro de 1930. Nessa altura já o FC Porto manifestara interesse na aquisição. O seu guarda-redes húngaro, Mihaly Siska, solicitara ao compatriota Josef Szabo, que jogava no Marítimo e estava em fim de carreira, que se transferisse para o Porto, pensando nele sobretudo como treinador. Szabo, que havia de fazer história mais tarde, comandando o arranque do Sporting de Peyroteo e companhia, acabou por aceitar o convite (jogador-treinador na primeira época) e levou o génio consigo.

Chegada ao Porto

Pinga chegou ao Porto no dia 23 de Dezembro de 1930 e estreou-se dois dias depois, num processo conturbado e sobre o qual a imprensa na altura levantou as mais variadas dúvidas quanto à sua legalidade. A revista “Stadium” adiantava suspeitas de irregularidades em assinaturas, terminando com uma afirmação curiosa: “A AF Porto é fértil em mistérios...” Talvez por isso, o nome de Pinga passe um pouco ao lado na história oficial do Marítimo, na altura incapaz de fazer prevalecer os seus argumentos.

História grande

A carreira de Pinga no FC Porto foi simplesmente extraordinária. Transformou-se no maior ídolo do clube e foi considerado no seu tempo o maior artista do futebol português de todos os tempos. Era um virtuoso, um driblador com noção colectiva, que aos poucos se foi afastando do golo – basta ver o quadro com o número de jogos e golos para o confirmar. A equipa girava à sua volta, pelo que foi sempre considerado o responsável pelas conquistas do FC Porto da altura. Não terá sido por acaso que depois de 1940 os azuis e brancos perderam a veia ganhadora.

Traição do menisco

Nos anos 40, Pinga fez apenas três jogos ao serviço da selecção, terminando a 1 de Janeiro de 1942 uma relação de mais de onze anos com a mais representativa equipa portuguesa – entre finais de 1930 e o início de 1942 apenas faltou a um dos 22 jogos efectuados por Portugal. Despediu-se com a braçadeira de capitão de equipa e com uma vitória por 3-0 sobre a Suíça. Passada a casa dos 30 anos, o génio deu seguimento à obra através do notável sentido de organização, actuando a médio e até a defesa. Em 1944 foi submetido a uma revolucionária operação ao menisco. Esteve um ano parado e quando voltou tinha 36 anos. Fez dois jogos na época de 1945/46 e marcou um golo. A 7 de Julho de 1946, no Estádio do Lima, fez a sua festa de despedida. E deixou o clube, a cidade e o futebol lavados em lágrimas.

Quando no Tirsense travou os «violinos»

Pinga prosseguiu então a sua carreira como treinador, inicialmente fora do FC Porto. Na época de 1948/49 encontrava-se ao leme do Tirsense, quando o sorteio da Taça de Portugal ditou a visita do todo poderoso Sporting a Santo Tirso. Os “violinos”, no auge do seu poder, saíram derrotados por 1-2. Uma proeza inesquecível para o clube.

Em 1954, o FC Porto contratou Cândido de Oliveira como treinador, em busca do título que fugia desde 1940. O velho mestre aceitou o convite, mas fez uma imposição: queria Pinga como adjunto. Pedido aceite. O génio dos anos 30 não sairia mais das Antas, acabando a trabalhar nas camadas jovens do clube. Integrado nos quadros técnicos portistas, faleceria ainda novo, com 53 anos, a 12 de Julho de 1963, vítima de uma vida que a partir de certa altura se tornou desregrada.
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