Vítor Gazimba, de 30 anos, licenciou-se em Eduação Física e Desporto na Universidade de Évora, onde concluiu também um Mestrado em Ensino. Mais tarde, iniciou o Doutoramento em Treino Desportivo na FMH (Faculdade de Motricidade Humana). Começou a carreira de treinador nas camadas jovens do Juventude de Évora, abraçando a primeira experiência como técnico principal no Ericeirense. Em 2014, foi convidado pelo Stromsgodset (Noruega) para comandar os sub-21, atualmente designada como a equipa B. Foi durante o Doutoramento que Vítor Gazimba ganhou a curiosidade por métodos de estudo para análise de performance em futebol. E é nesse sentido que o português se tornou pioneiro do ‘Passing Network Analysis" no futebol norueguês, uma metodologia pensada no aperfeiçoamento do processo ofensivo. O que é, como funciona e para que serve? O Record fez estas e outras perguntas; Vítor Gazimba explicou tudo ao detalhe.

O QUE É O 'PASSING NETWORK ANALYSIS' (ANÁLISE DE REDES APLICADAS AO ESTUDO DO FUTEBOL):

"A análise de redes é uma metodologia que foi inicialmente desenvolvida para analisar as interacções sociais estabelecidas entre diferentes indivíduos. No caso específico do futebol, a análise de redes pode ser utilizada para observar o padrão de interações estabelecidas pelos jogadores ao longo do jogo".

COMO FUNCIONA:

"Este tipo de análise baseia-se na aplicação de medidas estatísticas complexas e fornece aos treinadores informação altamente valiosa sobre o processo ofensivo das suas equipas. No exemplo posto em prática, no primeiro jogo da pré-época, esta análise foi utilizada para analisar as sequências de passes realizadas pela equipa B do Stromsgodset."

OBJETIVOS:

 - "Ter informação clara sobre o padrão de jogo ofensivo exibido pelas nossas equipas";

 - "Analisar os jogadores que interagem com mais frequência";

 - "Saber quais as interações ofensivas e, posteriormente, as que têm mais sucesso";

 - "Perceber quais os jogadores mais influentes no processo ofensivo da equipa";

EXEMPLO 1:

"O tamanho do círculo que se encontra associado a cada jogador está relacionado com a quantidade de passes que estes receberam. A imagem mostra que foi Hasan Duman (HD) a receber o maior número de passes dos colegas, ou seja, o jogador em quem a equipa mais confiou para a definição do processo ofensivo".































EXEMPLO 2:

"Nesta segunda imagem, o tamanho do círculo associado a cada jogador está relacionado com os passes corretos. Os resultados demonstram que os nossos 3 médios, Hasan Duman (HD), Erik Skistad (ES) e Asmund Edvardsen (ABE) estiveram particularmente acertados nas suas acções com bola. Trata-se de um aspeto positivo para a evolução coletiva, uma vez que a forma de jogar da equipa encontra-se altamente dependente de médios que tenham a capacidade de manter a bola com qualidade".































EXEMPLO 3:

"Este terceiro exemplo é, do ponto de vista prático, a análise mais clara e valiosa. Acima de tudo porque revela quais os jogadores mais importantes no processo ofensivo, ilustrado através do tamanho do círculo nas iniciais. Neste caso, é visível que Hasan Duman foi o nosso jogador mais influente. O que também nos mostra que o nosso processo ofensivo encontra-se altamente dependente do nosso capitão. Conclusão: individualmente, a análise comprova a enorme qualidade deste jogador; coletivamente, indica-nos que temos de trabalhar- e posteriormente corrigirmos - para não estarmos demasiado dependentes de um só jogador.
Mas se aplicarmos ao adversário, conseguimos perceber se a equipa que vamos defrontar se encontra dependente de um ou mais jogadores e em que grau. E se se confirmar, permite-nos saber qual ou quais os jogadores a pressionar de forma a condicionar o jogo ofensivo do adversário".































CONTEXTO:

"Este tipo de análise não é comum no futebol. Pelo que sei, ninguém entre a minha rede de treinadores na Noruega utiliza este método e posso dizer que todos ficaram bastante curiosos, o que torna este projeto especialmente inovador. Acredito que este tipo de análise, com forte impacto visual, será o futuro do futebol e que, a médio prazo, todos os grandes clubes irão utilizar esta metodologia. Aliás, sei que o Mancheser City, antes da chegada do Pep Guardiola, utilizava a análise de redes no futebol e também fui informado de que o Manchester United está a colocá-la em prática. O primeiro contacto que tive com este tema foi no meu doutoramento na FMH. Na altura, a sua aplicação no futebol ainda se encontrava em fase de teste, mas vários estudos científicos têm vindo a comprovar as potencialidades deste tipo de análises, também no futebol".

Autor: David Novo