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Miguel Cardoso: «Não houve contactos do Sporting»

Treinador do Nantes admite poder vir a treinar qualquer dos grandes, mas garante estar "confortável" no estrangeiro

• Foto: Ricardo Jr
RECORD - O Sporting chegou mesmo a contactá-lo para assumir o comando da equipa?

MIGUEL CARDOSO - Não. Absolutamente não.

R - Mas depois de ter sido associado ao Sporting, não gostava de um dia treinar o Sporting?

MC - Como outros clubes. Tive oportunidade de conhecer o Sporting, já lá trabalhei. Naturalmente é um clube excitante. Acredito que todos os treinadores, um dia, gostassem de treinar o Sporting. Assim como o Benfica ou FC Porto. São três grandiosos clubes em Portugal. Como também já trabalhei no Sporting de Braga em momentos históricos do clube e foi brutal. Mas é preciso olhar para o presente com ambição grande, a ambição é fazer bem agora. Quando se faz bem a cada dia, a cada treino, a cada jogo, quando se tenta fazer o melhor, quando se é muito honesto e se cria empatia com as pessoas, relativamente aquilo que é a nossa proposta de trabalho, acho que o futuro acontece com naturalidade. É basicamente isso que me tem trazido ao longo do tempo, num trajeto crescente de carreira, com muita tranquilidade. No mento certo a assumir o projeto de treinador principal. Podia ter acontecido muito antes, mas não aconteceu precisamente pelo conforto que eu tinha na minha carreira. Tive quatro anos na Ucrânia brutais. Tudo acontecerá o que tiver de acontecer a seu tempo, com a mesma naturalidade como até aqui.

R - Passa-lhe pela cabeça voltar a Portugal a médio ou longo prazo?

MC - Naturalmente que em Portugal há um conjunto de clubes que são sempre muito motivantes. Sou uma pessoa muito aberta a desafios, a experiências diferenciadas, e estar no estrangeiro não me causa desconforto. Tenho a família completamente equilibrada e daí que não sinta neste momento essa necessidade. A seu tempo, acredito que os desafios que, eventualmente, possam aparecer de Portugal possam ser muito bons, tal como de outros lados do Mundo, e estaremos abertos a definir novos posicionamentos. Mas este momento é de foco muito grande naquilo que vamos fazer, estou muito entusiasmado com este projeto, queremos muito trabalhar em conjunto com o clube, ajudá-lo.

R - No Rio Ave conseguiu uma classificação histórica. Como é que acha que vai ficar o seu legado no clube. Acha que será possível chegar à fase de grupos da Liga Europa?

MC - Confesso que não vi nenhum jogo de preparação do Rio Ave. Passei um momento difícil nas férias e nem o próprio Mundial, em muitos momentos, consegui acompanhar. Mas aquilo que eu entendo é que o Rio Ave é uma estrutura forte, independentemente da sua reestruturação com a saída do treinador, do diretor desportivo. Acredito que seja capaz de reorganizar uma equipa, até porque também saíram muitos jogadores, e mantenha níveis de ambição elevados. Acima de tudo o que desejo é as máximas felicidades já para estas eliminatórias. Isso é que é fundamental, porque muito dificilmente o meu coração ficará afastado daquele conjunto, daquele património. No fundo é um legado que também ficou ali.

R - Conhece bem o Marcelo, central que trocou o Rio Ave pelo Sporting. Acha que vai ter sucesso em Alvalade? Tem capacidade para lutar com centrais com Mathieu ou Coates?

MC - Quando se está entre jogadores de eleição, é necessário elevar as nossas capacidades ao limite. É um bocado como nós aqui, enquanto treinador. O Marcelo é, acima de tudo, um grande profissional. É uma excelente pessoa. Vai fazer um caminho gradual, que poderá ou não levar à afirmação. Depende muito do processo em si. Como não conheço aquilo que o seu treinador quer, não posso dizer se se vai afirmar. Acredito que ele vai trabalhar e vai lutar porque tem um caráter excecional. Lutou muito para chegar a este momento. O Marcelo veio do Ribeirão, quando chegou a Portugal vinha com um saco plástico na mão. Eu sei dessa história. Chegou onde chegou e não vai querer ficar onde está. Isso posso afirmar, porque em termos de caráter vai fazê-lo. Vai defender de um conjunto de coisas, mas espero e desejo-lhe a melhor sorte.

R - E em relação ao Francisco Geraldes. Esteve muito bem no Rio Ave. O que se pode esperar dele no Sporting?

MC - O Francisco em modelos que privilegiem o jogo, o controlo do jogo pelo posse, em que a equipa construa e se mantenha junta e traga o jogo para a frente, isso valoriza o jogo dele. Mas o Francisco é um jogador inteligente, que precisava de um espaço de afirmação como teve no ano passado e acho que está pronto para desafios maiores. Agora compete às pessoas do Sporting e não a mim dizer quando, como e porquê. E naturalmente ao Francisco dar resposta nos contextos em que tiver essas oportunidades, e acho que vai conseguir. Foi um miúdo que me entusiasmou bastante. Neste momento acho que é um jogador afirmado, não tem sentido nenhum olhar para o Francisco como uma promessa. De promessa já não tem nada, já cumpriu muitas coisas. A seu tempo vai criar um espaço ainda maior.

R - E quanto ao Yuri Ribeiro, que regressou ao Benfica?

MC - O Yuri fez o seu caminho. Chegou ao Rio Ave e tinha um contexto de afirmação difícil, em função daquilo que era um Bruno Teles, num fase inicial não jogou. Mas sempre que lhe foi dada uma oportunidade ele foi de uma abnegação e de uma capacidade permanente de procurar interpretar aquilo que lhe pedia muito grande, que é aquilo que eu peço aqui aos jogadores: Quem estiver mais próximo de perceber aquilo que nós queremos provavelmente vai ter mais oportunidades. E o Yuri agarrou-as. Nos momentos em que o Bruno, por isto ou por aquilo, não pode jogar, ele jogou muito bem, e eu funciono muito assim. O jogador que tem uma oportunidade e cumpriu em grande nível não há motivo para voltar a trocar. Aproveitou a oportunidade e fez uma época brutal. Deu-nos muito e nós também lhe demos muito. Ele afirmou-se e, neste momento, acho que é uma mais valia.

R - Quem é que acha que parte à frente para o próximo campeonato português?

MC - Há de facto três equipas. O ano passado falei muitas vezes num campeonato a quatro, que tem a ver com a diferença entre as quatro primeiras e as outras. Vejo um V. Guimarães com muito ambição, com uma determinação muito grande em se aproximar. Espero que isso aconteça, era muito positivo, não só para o futebol português mas também para o próprio clube, que é um clube com uma massa associativa brutal. Acredito que há condições de paridade enormes entre os três grandes. Acredito que o Sporting vai naturalmente surgir com uma nova energia, porque é um processo que vai deixar alguma mágoa, mas pelo menos relança energias. Após os momentos de crise, sai-se com mais energia. Acontece assim em todo o lado. Vejo o Sporting, o Benfica e o FC Porto num nível brutal. Independentemente da diferença que há com os outros clubes, o Braga tem também condições, pois tem um plantel incrível, tinha e terá certamente este ano. Mesmo precisando de vender para criar mais valias, o que é normal, vai reestruturar-se. Tem uma estrutura brutal, um treinador competente, uma equipa forte e quiçá possa pisar os calcanhares aos grandes. Acima de tudo, o fundamental para o futebol português era que as equipas de baixo se consigam aproximar cada vez mais de cima. É fundamental percebermos o nível de jogo que queremos ter. Isso é o grande desafio do futebol português, que as equipas de baixo procurem níveis de jogo evoluídos, mais fortes, que tentem ser afirmativas, que procurem essa ambição, porque isso depois permite elevar o nível do campeonato em si. Isso entusiasma as pessoas, leva-as a querer ver o jogo. Somos um país que ama o futebol, damos muito do nosso tempo a esta atividade. Foi o maior prazer que eu tive este ano, ver que aquilo que aportamos ao futebol português foi uma proposta de jogo entusiasmante, que excitou muita gente, que fez muita gente ir aos estádios. Ainda hoje continuo a receber feedbacks nesse sentido. Portanto, acho que é esse o caminho e o futebol português tem todas as condições para trilhar as sendas do sucesso, a exportar jogadores e treinadores. Que todos tenhamos a capacidade de nos ajudarmos uns aos outros, porque a nossa afirmação no exterior permite abrir novas portas. As minhas certamente só foram abertas porque houve gente que mostrou que nós éramos competentes e espero que daqui a algum tempo haja alguém que continue na senda, que possamos continuar este processo de crescimento. É altamente motivador e temos muitas valias, somos muito fortes quando trabalhamos. Somos muito organizados, conhecemos o jogo muito bem e sabemos como trabalhar. E daí os nossos jogadores também se conseguirem afirmar. Tem muito a ver com a capacidade dos nossos treinadores.
Por Carolina Couto
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