José Mourinho concedeu uma extensa entrevista à 'France Football', que vai para as bancas esta terça-feira. Na conversa com o jornalista francês Thierry Marchand, o treinador português fez algumas confissões surpreendentes sobre si e a sua evolução, entre elas o facto de ser "uma pessoa mais calma por estes dias".

Sobre o Manchester United, clube que começou a orientar no final da temporada passada, José Mourinho reconhece que tem bastantes desafios pela frente, principalmente a renovação da equipa, depois da saída de alguns jogadores míticos do grupo. O trunfo, garante, é ter Ibrahimovic.

"É necessário adaptar-se á realidade do clube, das suas necessidades e exigências. A isso chama-se ser inteligente. A prioridade é estabelecer relações de paz e amor num grupo, de criar estabilidade", afirma Mourinho. "O Manchester United já não tem as super-personalidades que eram o Ryan Giggs, o Paul Scholes ou o Roy Keane. Ainda tem o Rooney e o Carrick, que são os últimos rostos dessa geração e há também um novo grupo de jogadores que tem de adaptar-se. É por isso que foi importante para mim contratar o Ibrahimovic. Nesta equipa, ele tem, sem ser inglês e sem conhecer a cultura do clube, a personalidade e o perfil para ser muito mais do que um simples jogador".

Quanto à Premier League, realidade que já conhecia das suas duas passagens pelo Chelsea, Mourinho acredita que se trata de um campeonato bastante equilibrado, onde, ao contrário do que se passa na Bundesliga com o Bayern Munique, não há maneira de uma equipa dominar o campeonato durante muito tempo.

"Em Inglaterra, os clubes são tão forte economicamente que o mercado está aberto a todos. Vejamos o exemplo do Bayern na Alemanha. Sabes quando é que começa a conquistar o título todos os anos? Quando, no verão anterior, compra o melhor jogador do Borussia Dortmund. Primeiro o Götze, Lewandowski no ano seguinte e o Hummels no ano passado", atirou o técnico, de 54 anos. "Já eu cheguei a um clube que tem uma história de bastante prestígio mas que não pode agir da mesma maneira. Não há um clube em Inglaterra - seja o Manchester United, o Liverpool ou o Manchester City - que consiga dominar de maneira permanente. O poder está dividido, tudo é mais difícil: comprar, ganhar, construir".

Mourinho começou por ser o 'Special One' na primeira passagem pelo Chelsea e, aquando do seu regresso em 2012, pediu para que o chamassem de 'Happy One'. Agora no Manchester United, considera que é uma pessoa mais calma, no controlo das suas emoções e intitula-se como 'Calm One'. Esta é, mesmo, a citação que faz a manchete da revista esta terça-feira.

"José Mourinho, como homem, tenta ser o oposto daquilo que é enquanto treinador. Tenta ser discreto, calmo e procura uma maneira de se desligar. Consigo chegar a casa e não ver um jogo de futebol que seja, não pensar nisso. Consigo fazê-lo. No início da minha carreira não podia, estava ligado em permanência, 24 horas por dia. Tive de encontrar uma forma de maturidade. Hoje sinto-me bem enquanto homem. Amadureci, estou mas calmo. Uma vitória já é mais o céu e uma derrota não é o inferno. Acredito que sou capaz de transmitir essa serenidade aos que trabalham comigo, aos meus jogadores. Continuo a ter as mesmas ambições, o mesmo empenho e o mesmo profissionalismo, mas tenho mais controlo das minhas emoções", revela o treinador português.

Sobre os seus famosos 'mind games', Mourinho acredita que funcionam melhor quanto mais forte é o espírito do grupo em que está envolvido e confessa que foi no Inter que se sentiu melhor a utilizá-los.

"Do ponto de vista psicológico, a relação dos jogadores é melhor quanto maior for a empatia no grupo e mais preparados os jogadores vão estar. Os 'mind games', que consistem em tentar manipular alguém psicologicamente através da comunicação social, é um meio de criar um estado de espírito que é sobretudo eficaz quando temos uma equipa repleta de personalidades e que está pronta a receber esse tipo de discurso", explicou. "No Inter estava como peixe na água. Tinha Materazzi, Cordoba, Ibrahimovic, Milito, Thiago Motta... Esses rapazes estavam prontos a seguir-me para todo o lado. Depois é outra coisa tentar liderar um grupo onde os jogadores não têm o mesmo perfil. Por isso, antes de seguir determinada direção, é preciso perceber as pessoas com quem estamos a trabalhar".

Autor: João G. Oliveira