Do atropelamento aos ténis à medida para conquistar o Coliseu de LA: odisseia de Carlos Lopes foi há 42 anos

Português conquistou o ouro na maratona dos Jogos Olímpicos de 1984

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Carlos Lopes
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Madrugada de dia 13 de agosto de 1984. Passavam 9 minutos das 3 da manhã. Portugal inteiro atento ao que se passava do outro lado do Mundo, em Los Angeles, onde aí corria o dia 12. E correr... é a mesmo a palavra indicada. Festejam-se hoje 42 anos do ouro olímpico Carlos Lopes, a primeira vez que se ouviu hino português no maior evento desportivo do Mundo. Feito cheio de peripécias e curiosidades, e é a partir delas que vamos recordar um dos momentos mais marcantes do nosso desporto. Até porque estamos a dois anos de voltarmos a Los Angeles, para os Jogos de 2028.

A corrida

Com mais de 30 graus Celsius em Santa Monica, Carlos Lopes fez uma corrida de trás para a frente, mantendo-se entre os primeiros e assumindo a liderança na fase decisiva, antes de se isolar nos quilómetros finais para entrar no Coliseu de Los Angeles, perante 90 mil pessoas e mais de 200 milhões a assistir por todo o globo, com uma bandeira portuguesa. Aos 37 anos (!), completou os 42,195 km em 2:09.21, estabelecendo um novo recorde olímpico e cortando a meta com 35 segundos de vantagem sobre o irlandês John Treacy, segundo classificado, e 37 sobre o britânico Charlie Spedding, medalha de bronze. O seu recorde olímpico viria a aguentar 24 anos, sendo batido em Pequim'2008 por Samuel Wanjiru (2:06,32).

Os ténis

Usou uns ténis que foram feitos à medida para serem campeões olímpicos e que lhe chegaram na véspera da prova. Contou a história . " Nunca tive dificuldade com o material que calçava pois tenho uns pés saudáveis. Usava o melhor que havia naquela altura e os ténis com que corri foram feitos para ser campeão olímpico. Foram feitos de propósito para mim e entregues na véspera da competição. Calcei-os durante uma meia horinha, fui fazer um treininho curto. Tinha uns pezinhos de ouro (risos), sabia bem como pisar. Estreava quase sempre ténis nas grandes competições, eram tão perfeitos que não valia a pena estar com essa preocupação. Até dizia ao meu filho para escolher os ténis para eu levar", disse em 2024.  

O atropelamento

Mas o mais espetacular é mesmo o atropelamento de que foi vítima a apenas 16 dias do dia da maratona, a 27 de julho. Enquanto treinava na Segunda Circular, foi colhido por um carro e, depois de uma cambalhota no ar, bateu no capô e partiu o pára-brisas com um cotovelo. Quase milagrosamente, não sofreu qualquer fratura, tendo ficado apenas com escoriações profundas numa coxa. 

"Fui atropelado. Quando me levantei, comecei a ver se tinha partido alguma coisa. Como não estava nada partido disse logo ‘está bom’ [risos]. Até com o braço partido tinha ido, não sei se ganhava mas ia. Nós corríamos no meio dos carros, mas era o que havia. Fiz várias provas em que a circulação automóvel não era cortada, mas também não havia tanto trânsito como há hoje em dia. Mais. A radial de Benfica até Monsanto tinha uma parte muito larga com um passeio, que em frente ao Estádio da Luz teria uns 15 metros. O condutor era um candidato à presidência do Sporting, Lobato Faria, que quis abandonar rapidamente o local pois estava atrasado para ir para o aeroporto. Ficou tudo sanado e ainda o livrei de apanhar uns chapadões [risos]. São coincidências tremendas... também ia focado a fazer um treino de 15 km o mais rápido possível. Então, ia mesmo em cima da estrada por o piso ser mais liso. Tive azar mas, ao mesmo tempo, acabei por ter sorte e tudo correu na perfeição. 

As homenagens

Alvo de muitas homenagens, a mais recente em julho, Carlos Lopes é dos desportistas mais condecorado nesse aspeto. Na ordem do Infante D. Henrique, foi sucessivamente distinguido como Cavaleiro (dezembro de 1977), Oficial (julho de 1984), Grande-Oficial (outubro de 1984), Grã-Cruz (agosto de 1985).  Em 2024, 40 anos depois da conquista olímpica, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa voltou a condecorado, desta vez com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

Para além disso, em 1984 o antigo Pavilhão dos Desportos passou a chamar-se Pavilhão Carlos Lopes. Viseu, cidade natal do fundista, tem uma Praça Carlos Lopes e uma estátua, e, em 2021, foi atribuído o seu nome à nova pista de atletismo  do Fontelo. Já na sede da Federação Portuguesa de Atletismo há também a sala Carlos Lopes.

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