São três casos diferentes. Dois deles são tristes, demasiado tristes e o terceiro desperta em nós uma certa nostalgia ou se quisermos melhor definição digamos que nos faz sentir aquele sentimento cuja tradução não existe e que se chama Saudade.

O Velho Hotel

Quando entramos em Pomene City, como pomposamente anuncia a placa à entrada da meia dúzia de habitações ali existente, damos com um letreiro que nos indica o caminho para o Velho Hotel, um complexo de várias unidades que se encontra debruçado sobre uma baía maravilhosa. E que tem uma história...

O hotel levou vários anos a ser construído, graças ao esforço e dedicação de um jovem casal (chamemos-lhe Maria e José) que a este sonho dedicaram parte da sua vida. Um sonho que inesperadamente se tornou um pesadelo. Em vésperas de começar a funcionar e já totalmente pronto para ser inaugurado, a guerra civil liquidou-o.

Maria e José, mais a sua filha Manuela (também este um nome fictício) tiveram de fugir e deixar para trás tudo quanto tinham erguido. A guerra acabou, mas já era tarde. Como as imagens da Isabel documentam, as casas foram vandalizadas, tudo quanto existia foi roubado e hoje o Velho Hotel já nem velho é - está morto. Morreu antes mesmo de ter nascido, pois nunca chegou a ser utilizado.

O ancião que nos contou a história, contou-a com a voz embargada pela comoção e pela tristeza, a mesma tristeza que nós sentimos quando vimos o estado de degradação do complexo que torna extremamente difícil a sua recuperação e, pelo que nos disseram, há ainda questões relacionadas com a sua posse que a torna praticamente impossível.

Naquele local paradisíaco, não havia o direito de se ter matado um sonho!

Chongoene, outro hotel morto

Foi lindo, tinha classe, bom gosto e muita qualidade, o hotel sobranceiro à praia do Chongoene. Por ali passei algumas vezes durante os tempos coloniais, nos idos de 71/72, quando prestei serviço como Alferes Miliciano no AB8, na então Lourenço Marques. Voltei agora para vê-lo a definhar, em ruínas.

Cá fora, a piscina continua a impressionar com os azulejos azuis e a sua prancha de saltos. O seu estado de conservação é estranho e reflecte bem a qualidade da construção daqueles temos. Um restinho de água (da chuva) vai ficando esverdeada... Quantos saltaram daquela prancha para o azul da água...

Lá dentro, ainda são visíveis sinais da imponência do hotel. Os baixo relevos em madeira que cobriam zonas de algumas paredes do salão e do bar são ainda nítidos. A máquina de dobrar lençóis ainda existe. O velho PBX ainda está lá, atirado para um canto por mãos sujas. Há chaves de quartos espalhadas pelo chão... Os taipais de chapa ondulada ou de tábuas e os cadeados que fecham os portões foram incapazes de suster o vandalismo.

E o quê ou quem matou o hotel do Chongoene? A resposta foi semelhante â anterior: a guerra. Ou seja, os homens!

Maputo novo, Maputo velho

O Rovuma sucedeu à messe de oficiais da Força Aérea. A catedral continua linda. O café Continental está pujante, pelo menos aparentemente. No lado oposto da rua...já não há café. Um era dos sportinguistas, outro dos benfiquistas... Como só há um, deve ser de ambos.

Passei pelo Cardoso e até fui capaz de voltar a ouvir o pianista que alegrava os jantares - no restaurante, a vista sobre a baía era e é imperdível - a tocar e a cantar êxitos de Sinatra. Abanquei ali algumas vezes e algumas vezes oficiais superiores (na patente!) me chatearam por ter o cabelo demasiado fora do regulamento. Enfim... como se os regulamentos da tropa fossem para ser cumpridos.

Vi o Polana, mas não entrei. Não tinha nem casaco nem gravata, como então era obrigatório para poder ir dar um pezinho de dança na sua discoteca. Fui ao Piripiri comer frango e beber umas laurentinas; andei a cheirar o peixe no mercado; enfim, passeei recordações pelo Maputo velho.

Do novo, vi prédios grandes e altos, uns feios, outros menos; uns centros comerciais iguais aos de qualquer outra cidade e com as mesmas lojas de qualquer outra cidade; restaurante e lojas novas; e até vi o nosso Presidente Marcelo passar... Enfim, Maputo cresceu, renovou-se mas não é esta Maputo a que mais me atrai.

Autor: Eládio Paramés