Usemos expressões populares para descrever estes primeiros dias de viagem pela África do Sul, nomeadamente pelo Kruger, e por Moçambique - depois do purgatório e do inferno atingimos o paraíso! Pomene, onde pernoitámos quarta e quinta-feiras, é de facto um lugar maravilhoso, diria mesmo quase único no Mundo. E por isso dói o coração ver o estado de degradação em que se encontra o Velho Hotel, uma unidade que há 30 anos estava pronta para ser inaugurada e que a guerra impediu que se concretizasse. Contaremos a história noutra altura.

Mas, como dissémos, para aqui chegar foi necessário passar pelas outras fases. A do purgatório foi a que no levou de Joanesburo, onde alugámos os jipes, até ao Blyde River Canyon, primeiro, e ao Kruger, depois. Estrada fácil, bem sinalizada e um parque que, sendo interessante, não deixa de ser um gigantesco jardim zoológico. Por sorte, vimos quatro dos big five ou seja, elefantes, búfalos, hipópotamos e um leão que estava de pantanas (para desespero do sportinguista do grupo). Faltou o rinoceronte, mas esses mesmo aqui estão escondidos dos «predadores-homens», pouco preocupados com uma espécie que caminha para a extinção se não fôr protegida.

Entrámos em Moçambique pela pouco utilizada fronteira de Giryiondo e fomos surpreendidos de imediato pela amabilidade dos agentes que controlam a passagem de forasteiros e depois pela forma célere como decorreram todos os trâmites legais. Os moçambicanos ficaram também surpreendidos por verem por ali portugueses mas não esconderam a satisfação pela nossa chegada. E a partir daqui começou o inferno. Entre aspas, obviamente, tal como o purgatório ou o paraíso.

Para quem gosta do todo-o-terreno puro e duro, deverá experimentar fazer a ligação da fronteira a Pomene passando por Mapai, pelo parque transfonteiriço do Limpopo e depois entrar na reserva natural do Banhine. Vai certamente espantar-se com as surpresas que a picada lhe vai oferecendo durante longas horas - aqui fazer uma média superior a 20 km/hora é miragem. A paisagem é soberba e nas aldeias a chegada dos nossos dois jipes quase dá direito a feriado local.

As pessoas são gentis, prestáveis, sorriem permanentemente mesmo quando não nos entendem. Sim, o português começa a ser uma língua em desuso. Muitos adultos já só recordam algumas palavras em português e muitas crianças nem isso. Uma tristeza que deveria preocupar os responsáveis pela nossa Cultura. O Presidente Marcelo, que chegará a Maputo por estes dias, que esteja atento a este problema...

Estávamos na província de Gaza, onde não cai uma gota de chuva há três anos e a sequia é dramática. As populações passam tempos terríveis, não há pastos, milhares de cabeças de gado morreram, a agricultura é impossível e a pobreza alastra. As crianças são as que mais sofrem, mas nem por isso deixam de ir à escola. Escola cujas condições precárias são inimagináveis - aldeias há onde os miúdos estão sentados à sombra da árvore onde está pendurado um velho quadro de lousa. os professores são heróis!

Problema pode ser também o do abastecimento de combustível, se não formos precavidos. Bombas até há, mas estão secas e gasóleo só de garrafão. Explicação de um: roubam gasóleo e depois vendem. Explicação de outro: quando há nas bombas, atestam garrafões até esgotar o combustível e depois revendem. Com lucro! Negócio é assim mesmo.

Felizmente, nós temos bastante autonomia (140 litros) e o Paulo Reis, o Pedro Santos, o Zé Amaro e eu próprio temos feitos uma condução...económica. A Cristina e a Isabel ainda não se atreveram... Daí que a nossa preocupação tivesse sido a de não fazer «noturnas» - às cinco e meia da tarde é noite - e a de termos sempre água. Comida havia com fartura. Havia e há, pois na baía de Pomene foi possível comprar aos pescadores um magnífico peixe serra, que alegremente grelhámos e deu para os seis e, além disso, deliciarmo-nos no restaurante do lodge com os caranguejos da zona (há-os com quase dois quilos!).

Estávamos, portanto, no paraíso. A praia, o envolvimento, o clima, á água tépida do mar ou da lagoa e, para que tudo acabasse da melhor forma possível, as lagostas (sete quilos) que os «mergulhadores» da aldeia nos venderam e que acabámos de liquidar no local onde nos encontramos - a praia do Tofo - e de onde, pela primeira vez, foi possível enviar estas linhas e as fotos da Isabel.

Amanhã iremos muito provavelmente até à Baía do Cocos. E digo provavelmente porque corre por aqui um alerta da polícia para as pessoas se manterem em casa, em virtude de uma manifestação convocada através das redes sociais para Maputo e a Beira. E pelo sim pelo não, o melhor será ficar por aqui a banhos.


Autor: Eládio Paramés