Modalidades de grande tradição no nosso país, o atletismo e o ciclismo vivem, pelo menos até agora, bons momentos e possuem historial totalmente distinto no que a desporto adaptado diz respeito. O atletismo é, a par do boccia, a única modalidade que saiu sempre com medalhas dos Jogos Paralímpicos, ao passo que o ciclismo é uma especialidade em franco crescimento nos últimos anos, tendo em 2016 colocado pela primeira vez dois atletas nos Jogos Paralímpicos. Ainda assim, pese embora a distância que as separa a nível de historial, ambas partilham uma das grandes dores de cabeça do desporto para pessoas com deficiência: a falta de jovens talentos a surgir.

Record esteve à conversa com os líderes de ambas as federações e o problema é reconhecido por ambos. "Precisamos de aumentar a percentagem de jovens com deficiência que praticam desporto", defende Delmino Pereira. Algo que também Jorge Vieira advoga, ainda que admita que essa mesma ambição esbarra em algumas variáveis, como "questões financeiras, de recursos humanos – ter a especialização e a quantidade necessárias para desenvolver e operacionalizar estes projetos".

Ora, se há consenso no problema, também no campo das soluções há igualmente opinião similar. Ambos defendem que a realização de uma "grande ação de sensibilização", tanto junto de instituições como de escolas, seria um passo importante para dar um novo impulso. Contudo, para tal suceder, há um longo caminho pela frente. "Ainda estamos muito dependentes dos jovens e das famílias, que desbravam terreno e vão à procura de soluções para uma prática desportiva e depois até verificam que têm condições para ir mais além e vão. Mas ainda é muito incerto este processo", lamenta o líder da FPA.

Experimentar antes de decidir

Na ótica de Jorge Vieira, ainda antes de escolher uma modalidade para seguir uma eventual carreira, o jovem deve primeiro de tudo fazer experiências, de modo a perceber onde está efetivamente o seu talento no que à atividade física diz respeito. "Os jovens não deviam ser, muito menos as crianças, propriedade de uma só modalidade. Deveriam ser praticantes desportivos, experimentar várias modalidades, ensaiar, ver onde têm jeito, onde está o seu gosto, onde sentem mais prazer e, a partir daí, especializarem-se numa determinada modalidade. Esse seria o caminho mais correto, mas na realidade tarda em haver planos transversais nesta área", admite, considerando que qualquer plano definido neste âmbito deve passar por um entendimento prévio entre as mais variadas federações. "Não deve ser cada uma por si", defende ainda o presidente da FPA.

Há condições para fazer melhor?

"Temos de apaixoná-los. Fazer-lhes ver que podem ter sucesso noutras áreas." A receita é da autoria de Delmino Pereira e é vista pelo líder da FPC como sendo a solução para chamar os jovens ao desporto, o ciclismo em particular. Contudo, sendo o ciclismo dependente das bicicletas (que neste caso são – ainda mais – especiais), admite que a questão financeira complica: "Estamos a falar de um desporto caro". Mesmo assim, garante que a FPC tem "tentado acompanhar a evolução" da modalidade e realça o papel de "patrocinadores e organizadores", assim como "uma abertura muito grande por parte do CPP, do IPDJ e do IPR, que têm sido muito cooperantes e que têm permitido fazer um bom trabalho".

No aspeto financeiro, Jorge Vieira vai mais longe e aponta o dedo à forma como o desporto é encarado por quem governa o país. "Vejo o financiamento do desporto nacional em números absurdos, de dois dígitos, de 85 a 86 milhões de euros, quando a cultura tem 400 milhões. É impensável falar em desenvolvimento desportivo quando o orçamento do desporto e da juventude está nos dois dígitos. É impensável! Quem disser que vai desenvolver com estes números está a mentir! Não é possível com estes números criar um desenvolvimento para além daquilo que vamos conseguindo fazer", garante o líder federativo do atletismo. 


Autor: Fábio Lima