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A nossa alma fica na Mauritânia

Elisabete Jacinto na Africa Eco Race

É curioso que vimos para estes ralis com o objetivo de provar que somos bons, que somos melhor que os outros, que sobrevivemos a todas as dificuldades, que somos os mais resistentes, os mais capazes...Procuramos uma classificação que faça prova disso mesmo e queremos vencer... Contudo, este país lindíssimo que tem o nome de Mauritânia, onde a natureza é agreste e consegue pôr em causa a nossa sobrevivência, tem a capacidade de mexer connosco, de alterar as nossas prioridades, de nos fazer perceber o que realmente é importante. É por isso que o rali, quando chega à Mauritânia, ganha um outro perfil. Todos os que em Marrocos tentaram dar provas da sua qualidade aqui "metem a viola no saco" e limitam-se a tentar sobreviver.

Foi exatamente isso que eu senti ao longo da etapa de ontem. Cansados, com as gotas de suor a escorrer pelo corpo, fomos transpondo dunas difíceis, cada vez mais difíceis, com calma, com muita perícia, às vezes com um desempenho brilhante... Mas eis que chegam duas das tais de areia completamente mole, separadas por um grande buraco e todo o nosso desempenho vai "por água abaixo". Ali ficamos "horas" a nadar para trás e para a frente, a tentar sair do buraco e tentar progredir... Nem que seja só mais uma duna. Já perdemos tempo! A classificação, a pretensão de ser um grande piloto, a vaidade de ser capaz de conduzir bem... Tudo isso perde a importância. Afinal, a única coisa que queremos, é fazer mais uma duna, custe o que custar... Para que, pouco a pouco, possamos aproximar-nos do fim, seja a que hora for. Afinal de contas, só queremos "sobreviver", ir dormir ao acampamento, nada mais interessa... A Mauritânia dá-nos uma lição de humildade que às vezes chega a ser chocante.

O rali acaba hoje. A etapa é pequena, vão ser cerca de duzentos quilómetros, depois temos mais trezentos para entrar no Senegal. Se tudo correr bem, vou conseguir terminar em terceiro dos camiões, mas é preciso esperar para ter a certeza.

Hoje vou dizer adeus às imensas planícies nuas, onde não há sinais de presença humana, por vezes cobertas por uma erva cujo tom de verde me faz ficar maravilhada. Vou dizer adeus às montanhas de rocha negra que contrastam com as dunas quase brancas de areia traiçoeira mas que formam paisagens de uma beleza espetacular. Gostava de ter o dom da escrita para as poder descrever!

As árvores vão começar a aparecer e com elas os animais... As pessoas! Vamos deixar de estar sós. Vamos atravessar Nouakchott… Uma cidade indescritível e vamos entrar no Senegal. As estradas vão ter imenso trânsito, os animais atravessam-na indiferentes, as pessoas circulam de carro, carroça ou bicicleta sem luzes... Um susto!

Vamos chegar a Dakar, a cidade que tanto desejámos ao longo destes dias, mas a nossa alma fica na Mauritânia.
Por Elisabete Jacinto
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