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Jogo de paciência

Jogo de paciência
Jogo de paciência
Caro leitor de Record, sou o alpinista João Garcia e escrevo-lhe desde o acampamento base do monte Manaslu, no Nepal, que tem 8.163m de altitude, onde estou em mais uma expedição que faz parte do projeto "João Garcia à conquista dos picos do Mundo com o Millennium bcp", que consiste em tentar escalar as 14montanhasmais altas do Mundo, todas acima de 8.000 metros de altitude.

A crónica da semana passada foi a descrição da aproximação ao acampamento base do Manaslu, onde prevejo passar umas boas quatro a cinco semanas. O que acontece é que o tempo não ajudou na nossa chegada aqui à base e o avanço montanha acima continua difícil. Neva todas as tardes e algumas noites, ao ponto de termos de acordar para descarregar o excesso de neve nas tendas,

não vão estas colapsar. Mas não é só no acampamento base que há muita neve, a montanha está carregada dela, bem fresca, que dificulta a progressão, pois enterramo-nos até ao joelho a cada passada.

Na quinta-feira subimos ao acampamento 1 a quase 5.900 m de altitude para transportar  equipamentos essenciais  às subidas seguintes: cordas, uma tenda, pitons e estacas. E regressámos ao acampamento base no mesmo dia. A subida e descida segue pelo glaciar Manaslu, circundando algumas crevasses de forma  cautelosa e encordoados (unidos por uma corda) para o caso de uma queda. Entendemos não montar sequer a tenda, pois com este tempo instável pode desaparecer ou danificar-se com os nevões que ainda estão para vir, de maneira que a deixámos em forma de depósito, ou seja, colocámos os equipamentos dentro de um saco, amarrámos tudo com cordas a umas estacas de alumínio enterradas na neve e balizámos com bambus, na ponta dos quais coloquei umas bandeirolas de cor "cerise" - também marquei a posição no meu GPS.

No passado não confiava muito no GPS, pois depende  de baterias que normalmente não gostam do frio, e porque era mais uma maquineta a carregar. Acontece que há dois anos, na minha escalada ao famoso K2, muitas expedições utilizaram os seus bambus para fixar as tendas em vez de marcar o caminho em caso de mau tempo. Na descida, com ventos furiosos que apagaram o trilho na neve e no

meio de nuvens, consegui encontrar o caminho graças ao GPS. A partir daí aprendi a lição: bambus+ GPS= +segurança.Esta subida também já foi utilizada para realizar medições de performance encomendadas pelos professores da Faculdade de Motricidade Humana. Subimos em 5 horas com cerca de 18 kg na mochila e descemos em 2h.

A equipa no acampamento base está reduzida a três escaladores e um cozinheiro nepalês: são eles o Jean Luc Fohal, belga, amigo de longa data, com o qual já conto há mais de 5 expedições, o Johan Perrier, alpinista francês, junto comigo em várias expedições no Nepal e escaladas nos Alpes, aqui a realizar a cobertura vídeo, e o cozinheiro de nome Kumar Tamang, que embora seja a primeira vez que partilha uma expedição connosco, parece-me ser um excelente profissional. E  também estou cá eu!

O moral está um pouco abalado pelo excesso de neve e também por termos estado sozinhos os primeiros 10 dias, mas agora que chegou a segunda expedição penso que o moral vai melhorar.

Analisando a situação de forma crua, não vemos progressos no que diz respeito à meteorologia que está a condicionar a nossa escalada. Podemos prever o que vai passar-se a uma semana de  diferença, mas não há controlo além disso. Por isso digo, às vezes, que controlamos apenas dois terços das operações, quero dizer, a logística, a nossa preparação, mas depois o estado da montanha e a meteorologia têm também algo a dizer.

Mantenho a convicção:  dentro do muito mau, o menos mau é podermos aclimatar no acampamento base para estarmos prontos quando o mau tempo terminar.

Abraço e até para a semana!

 

 

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