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Subir ao cume em solitário

A crónica desta semana mostra que escalar estas montanhas é uma escola de paciência. É justamente esta paciência aliada à perseverança que acaba por funcionar. Eu acredito que quando trabalhamos arduamente mais cedo ou mais tarde acabamos por ser "recompensados" e foi justamente o que aconteceu. Pena que os meus companheiros de expedição não acreditem nestas palavras.

O dia do cume acabou por ser mais ventoso do que o previsto. Não foi um engano, foi apenas uma opção, a informação meteorológica tem os seus limites, nos dois dias anteriores à ascensão a rede do telefone de satélite não esteve disponível, de maneira que saí do último acampamento a 7.000 metros de altitude em direção ao cume do Manaslu sabendo que as condições ideais podiam não ser encontradas.

Já acima do acampamento 3, na véspera da subida ao cume, encontrámos dificuldades acrescidas, com gelo duro, quase vidro, as quais tivemos de resolver colocando algumas cordas fixas. Passei outra noite aos 7.000 m, noite essa em que não se consegue dormir, seja pela ansiedade ou pela falta de conforto... Oiço os coreanos na tenda ao lado a sair pelas 22 horas. Eu saio quatro horas depois e, passado esse sector de blocos de gelo na escuridão total, estou no planalto alto onde se avistam ainda alguns vestígios de tendas destruídas e outros objetos, fruto da força da natureza, o que me relembra quão severas podem ser estas montanhas para os mais desatentos...

Continuo por duas colinas intermináveis, onde o gelo duro se transformou em neve dura e progrido melhor. Subo em direção ao cume, fácil de adivinhar: é sempre a subir até não poder mais. Ao longe adivinho três pequenos pontos, os dois coreanos e o seu sherpa - dizem-me que estou a uma hora. O dito cume estará ainda por se deixar ver, estará ainda por detrás desta massa enorme de neve. Desejam "good luck" e desaparecem, pois a descer são quatro vezes mais rápidos do que eu a subir...

Na aresta do cume o vento não me deu tréguas. Pelo contrário, quanto mais subia, mais intensas pareciam as rajadas. As nuvens estavam prisioneiras por detrás de uma aresta deformada, a qual conduzia a uma grande rocha onde estava o cume do Manaslu. Faço foto ao longe, depois subo ao cume para fazer foto ao local onde deixei o bambu com a bandeira de Portugal. Eram cerca das 11 horas do dia 28 de abril, no Nepal.

A descida foi, como previa, mais rápida e suave. Ao cruzar-me com o grupo de italianos e de espanhóis encorajo-os, mas sei que as condições não vão melhorar e que eles estão atrasados... Acabo por saber que estes dois desistiram, dando meia volta perante um vento que entretanto aumentara. Desço quase direto ao C1 onde tenho de derreter neve, pois não suporto mais a sede, e sigo ainda antes do anoitecer para o acampamento base.

No dia seguinte visito o acampamento do Carlos Pauner, alpinista espanhol que tem a colaboração de uma pessoa muito especial, Jose Ramon Morandeira, médico de Saragoça que me acolheu durante a minha desgraça do Evereste, há precisamente 10 anos. José Ramon, cirurgião e antigo alpinista de 62 anos e, como diz, nunca reformado, foi pioneiro no tratamento a congelações e está de visita ao acampamento base. Foi com muito gosto que fui dar-lhe um abraço amigo e reconhecedor.

Era este homem que em 1999 punha as enfermeiras loucas, raptando-me do hospital no fim-de-semana para irmos dar uma "vuelta" aos Pirenéus... Este Homem desceu há uns dias a uma aldeia a 10 horas de distância a pé para tratar de uma senhora que levou uma cornada de um iaque. Nem queria acreditar nas fotos que nos mostrou: abriu os danos, limpou a peritonite, deixou um dreno e coseu apenas com anestesia local como se estivesse no seu clínico universitário...

Muitas outras coisas se poderiam contar sobre o José Ramon, mas resumo que passou de alpinista a Humanista, e que bela inspiração é para quando eu atingir o Horizonte dos meus sonhos! Esta é a minha última crónica da série Manaslu.

Um grande abraço.

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