Fala quem sabe e Steve Davis, hexacampeão mundial dos anos 80, sabe como poucos: "O Campeonato do Mundo é uma maratona e não uma corrida de 100 metros." De facto, num torneio que dura 17 dias e onde para vencer um jogador tem de ganhar 71 jogos, podendo disputar 137 no total, é pedido muito mais do que habilidade na arte de embolsar bolas. Aqui ganha quem é mais resiliente, tenaz, concentrado e letal.

Em 2016, assim foram Mark Selby e Ding Junhui. Para o inglês, a presença na final não é novidade, uma vez que chegou ao confronto decisivo em 2007, quando perdeu para o escocês John Higgins (13-18), e em 2014, quando surpreendentemente se superiorizou ao campeoníssimo Ronnie O’Sullivan (18-14).

Já Ding Junhui joga pela primeira vez o encontro mais desejado da carreira de qualquer profissional. A ‘Estrela do Oriente’, que despontou em 2005 e já arrecadou 11 ‘majors’ no seu percurso, tem vindo a adiar a esperança de milhões de chineses de verem um compatriota no topo do Mundo. Para já, a história começou a ser escrita, já que pela primeira vez temos um jogador asiático na final do Mundial.

No confronto direto entre ambos, maior equilíbrio era quase impossível: 11 vitórias para Selby, 10 para Ding e apenas um empate. Talvez por isso mesmo o discurso de Selby antes do encontro decisivo tenha sido marcado pela prudência: "O Ding jogou muito bem neste Mundial e eu, para vencer, tenho de jogar muito melhor na final do que fiz até aqui. Acima de tudo tenho de desfrutar o momento, tirar pressão de cima dos ombros e não jogar cada bola como se fosse uma questão de vida ou de morte."

Já Ding Junhui quer fugir da onda de entusiasmo do povo chinês: "Esta época não me correu nada bem mas nos últimos dois meses melhorei muito. Agora sinto-me confiante e estou capaz de jogar contra qualquer um. Sei que tenho milhões de apoiantes no meu país mas, acima de tudo, tenho de me abstrair de tudo isso e permanecer o mais calmo possível."

A final iniciou-se ontem e termina hoje. Selby está na frente no final das duas primeiras sessões, por 10-7.

Comemorar a dobrar: Selby é adepto do Leicester

Mark Selby é um fanático adepto do Leicester FC e um dos mais famosos do clube da sua cidade que, este ano, está a um pequeno passo de escrever história na Premier League.

Daí que, desde o início do Mundial, os media britânicos tenham questionado o ‘Jester From Leicester’ sobre a hipótese de ser campeão do Mundo no mesmo dia que o seu clube sobe ao trono do futebol inglês: "Nem quero imaginar como será. Não queria estar na pele do dono do pub onde irei festejar, mas sei que na semana seguinte irei fazer a volta de honra no nosso estádio. Será alucinante", diz Selby.

E as estrelas parecem estar mesmo alinhadas para um festejo duplo no mesmo dia. Com o empate do Leicester em Old Trafford, se o Tottenham não vencer hoje em Stamford Bridge, diante do Chelsea, os pupilos de Ranieri fazem a festa. Com o Mundial de snooker a terminar no mesmo dia, Selby e Leicester FC podem escrever história… em simultâneo!

Lisboa Open de regresso

Uma das grandes novidades avançadas em pleno Mundial foi o regresso do snooker a Portugal já na próxima temporada. Foi o próprio Barry Hearn a dizê-lo em conferência de imprensa: "Desde 2014 que Portugal, e a cidade de Lisboa em particular, é um das nossos alvos", avançou o responsável máximo da World Snooker.

E continuou: "Sabemos que os portugueses têm paixão pelo jogo, pois só assim se explica que mais de 1.200 pessoas tenham visto uma final de uma das etapas do Tour Europeu. Mas agora queremos mais. Queremos um ‘major’ que vá para ficar, entre 3 a 6 anos, e queremos fazer uma aposta na formação de treinadores e jogadores jovens para que, no futuro, os portugueses tenham uma estrela no mundo do snooker."

Também Mark Selby está ansioso por jogar em Lisboa. "Espero um dia jogar em Portugal e quero agradecer aos muitos fãs que sei que tenho por lá."

Casamento de uma década com o Eurosport

Desde 2001 que o snooker entra em casa dos portugueses através do Eurosport. As audiências são das melhores do Mundo, mesmo sem portugueses entre os jogadores de topo. Portugal foi, aliás, o exemplo dado por Barry Hearn, líder da World Snooker, para justificar o acordo de 10 anos com o canal: "O Eurosport foi o grande responsável pelo crescimento do snooker fora do Reino Unido. Temos países, como Portugal, onde a modalidade é seguida por milhões de fãs."


Autor: Miguel Sancho