Não sobe o pano mas há uma parede que separa as duas mesas nas primeiras rondas. Não se ouvem as famosas pancadas de Molière, mas o absoluto silêncio é digno de uma plateia que assiste a uma tocante interpretação de uma peça de Shakespeare. Há drama, por vezes comédia, e sempre muita emoção. No final, invariavelmente, as palmas ecoam e o auditório em peso presta um sentido tributo, de pé, a quem mais brilha.

É isto o ‘Crucible Theatre’, uma sala que diariamente é arena para as interpretações mais geniais dos mestres do palco de todo o Mundo. Porém, durante 17 dias transforma-se no verdadeiro ‘Teatro dos Sonhos’ dos mestres do pano verde. Assim é desde 1977 quando John Spencer venceu o primeiro Mundial da era moderna do snooker.

Ao longo de 40 edições já houve de tudo um pouco. Desde a vitória arrasadora de Steve Davis, o grande ícone dos anos 80, sobre John Parrott (18-3), passando pelos cinco triunfos consecutivos do campeoníssimo escocês Stephen Hendry (1991 a 1995) ou o recorde do ‘147’ mais rápido da história, protagonizado pelo inevitável Ronnie O’Sullivan, em 1997.

Pelo meio, o ‘Teatro dos Sonhos’ tem sido o pesadelo de muitos outros. Que o diga Jimmy White que aqui perdeu seis finais (!!!), quatro delas para a sua verdadeira "besta negra", Stephen Hendry.

Há muito que a China, uma das potências da modalidade, quer levar o Mundial para o Oriente. A resposta de Barry Hearn, ‘patrão’ da World Snooker, é taxativa: "Se há coisa que aprendi na minha vida é que não se brinca com a história. O Mundial de snooker fora do Crucible é o mesmo que a Taça de Inglaterra noutro estádio que não Wembley. Enquanto o povo de Sheffield nos continuar a acolher desta forma tão calorosa não mudaremos uma vírgula. O dinheiro não pode comprar a história."

SABIA QUE...

- O Mundial distribui este ano 1,5 milhões de libras (1,875 milhões de euros), das quais 330 mil (415 mil euros) são para o campeão? Um recorde absoluto. Mas a World Snooker já disse que vai mais longe: no próximo ano, só o campeão irá embolsar meio milhão de libras (640 mil euros)

- O primeiro Mundial da história foi ganho por Joe Davis, o ‘pai’ do snooker, no longínquo ano de 1927? Davis foi de resto o único jogador que nunca foi derrotado na prova, colecionando 15 triunfos consecutivos, o último dos quais em 1946, depois de quatro anos de pausa devido à 2ª Guerra Mundial.

- Mark Selby e Marco Fu estabeleceram o recorde do jogo mais lento da história dos Mundiais? Aconteceu no último ‘frame’ da terceira sessão, quando foram precisos mais de 76 minutos para Selby levar de vencida o homem de Hong Kong.

- Se Ding Junhui fizer quatro entradas com mais de 100 pontos na final irá igualar o recorde do escocês Stephen Hendry com mais ‘centenárias’ numa única edição do Mundial? Aconteceu em 2002 quando Hendry, o maior vencedor da era moderna do snooker (7 títulos mundiais), fez 16 entradas de três dígitos no torneio. Antes da final, Ding tinha 12, 7 delas face ao também escocês Alan McManus na meia-final.

- O recorde de audiência de um jogo de snooker continua a ser a final do Open da China, de 2005, na qual Ding Junhui venceu Stephen Hendry? Segundo os dados, só no gigante asiático houve mais de 120 milhões em frente ao ecrã. Nascia aí a estrela do Oriente. Ding tem hoje mais de 5 milhões de seguidores nas redes sociais e é a 3ª figura do desporto chinês mais reconhecida entre os seus pares.

- Portugal é o único país do Mundo onde os grandes clubes de futebol também têm equipa de bilhar? FC Porto, Sporting e Benfica há muito que têm os melhores do Mundo na carambola (3 Tabelas). No pool, a variante mais jogada em terras lusas, também o Sp. Braga e a Académica contam com estrelas internacionais. Falta o snooker, mas ao que o Record apurou essa exceção pode estar prestes a deixar de o ser, pois os três grandes já preparam a próxima temporada a pensar nos profissionais de topo.

- Até hoje só um português venceu um ‘frame’ a um jogador profissional? O autor da proeza foi João Grilo, atualmente atleta do Sporting, que no Open de Lisboa perdeu por 4-1 face ao inglês Michael Holt, que também foi uma das figuras do Mundial de 2016 ao eliminar o favorito australiano Neil Robertson.


Autor: Miguel Sancho