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A final vista por...

António Magalhães
António Magalhães Diretor de Record

Jamor dos heróis e dos mártires

O futebol proporciona a utilização de uma linguagem apaixonada, às vezes romanceada, outras vezes dramática. Nos jogos da Taça de Portugal, expressões como heróis e gigantes são vulgares e aplicadas com todo o propósito de acordo com as proezas que amiúde acontecem.

Por isso mesmo, não há outra maneira de classificar os homens das Aves que foram ao Jamor protagonizar uma conquista histórica que de modo algum pode ser subvalorizada em função do contexto em que ela foi obtida, por via da ’semana negra’ que o adversário viveu.

Com a mesma coerência deverá evitar-se lançar uma carga negativa sobre os jogadores do Sporting. Noutro enquadramento, provavelmente falar-se-ia em vergonha e humilhação. Neste caso, é impossível fazê-lo. O facto de os jogadores leoninos terem tido a disponibilidade mental para marcar presença no Jamor, já foi uma vitória deles e do clube que representam.

Força física e equilíbrio emocional foi claramente o que faltou ao Sporting. A entrada forte no jogo tinha claras intenções: marcar primeiro era essencial para ajudar a criar uma estabilidade que decididamente a equipa não tinha.

Faltou o golo e quando Alexandre Guedes fez o primeiro do seu bis deixou imediatamente o leão à beira do KO.

O Aves soube jogar com o contexto e as circunstâncias. Primeiro, preparou-se com o cuidado que a ocasião impunha. Um jogo único, histórico e perante um adversário ferido de morte. Depois, protegeu-se no primeiro impacto e procurou aproveitar todas as pequenas falhas para construir o caminho da sua felicidade. O posicionamento rigoroso e agressivo, o controlo dos espaços, a proximidade das linhas num bloco que nunca foi muito baixo deram solidez a um jogo seguro e a uma ambição que cresceu à medida que o tempo passou.

À meia hora, o Sporting começou a dar sinais que poderia capitular cedo. Os movimentos eram mecânicos, faltava a cabeça fresca e inspirada. E as pernas começaram a fraquejar. O leão passou a arrastar-se penosamente. Estava paralisado.

O segundo golo originou a debandada (quase) geral dos adeptos do Sporting. Os que ficaram viram Bas Dost desperdiçar uma oportunidade de golo que só um jogador sem níveis de confiança é capaz de perder. Tivesse sido golo, e quem sabe o Sporting talvez fosse mais longe na ilusão de que poderia dar a volta ao jogo. Daria? A verdade é que o Sporting perdeu a final muito antes de a ter começado a jogar.

O Aves fez um jogo quase perfeito. Preparou-se muito bem. Aproveitou o momento. Foi inteligente, organizado, equilibrado e soube agarrar aquilo que o jogo lhe deu.

O assalto final dos leões fez-se com o coração que era aquilo que restava aos mártires de Alcochete. Não foi suficiente para abater a bravura do adversário. Sim, porque do outro lado estavam heróis.

QUESTÕES LATERAIS

Presidente Marcelo não podia faltar

Sem qualquer constrangimento, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu mesmo aparecer no Jamor. Seria lamentável que o Presidente faltasse. À exceção de Ferro Rodrigues, as mais altas figuras do Estado estiveram na tribuna. Sem grandes sorrisos mas cumprindo o dever e deixando mensagem de confiança para o futuro. A ver vamos.

Duque de trunfo em época histórica

Figura relevante na vida sportinguista, Luís Duque está a trabalhar com o Aves desde 2016. Cruzar-se com o clube de coração no Jamor foi, obviamente, um momento particularmente simbólico. Orgulhoso pela proeza, contido no festejo, o nome de Luís Duque fica inevitavelmente associado a uma temporada brilhante do Aves que terminou com a conquista histórica da Taça de Portugal. É um regresso em grande!

A mancha das claques

Ainda a final não tinha começado e já havia 22 detidos, vários deles em resultado de incidentes entre membros da... mesma claque. É a vida excitante dos grupos organizados de adeptos. E é também o reflexo de que o Sporting está decididamente num processo fratricida. Basta de assobiar para o lado e pôr paninhos quentes. Haja mão pesada.

NOTAS DE RODAPÉ

5. Alexandre Guedes. Tem um enorme potencial – que não era desconhecido – e que expressou de forma arrasadora no Jamor. Fica na história do Aves e entra na montra. Os dois golos demonstram grande qualidade técnica e faro pelo essencial.

4. Nildo Petrolina. Há jogadores que se diferenciam pela capacidade de se oferecer ao jogo e não ter receio de ter bola. Petrolina junta-lhe talento e maturidade. Tudo isso foram qualidades essenciais para o Aves ser capaz de ferir o leão.

3. Acuña. Raça, vontade, querer e um fôlego que o manteve ‘em jogo’ em permanência. Tivesse a possibilidade de injetar ‘oxigénio’ a muitos dos seus companheiros, e provavelmente o leão teria outra capacidade física para enfrentar o desafio.

2. Gelson Martins. Entrou a toda a velocidade no jogo, dispôs de duas grandes oportunidades de golo que confirmaram a relação menos eficaz que tem com o golo. A maior crueldade foi ter ficado ligado ao 2-0 do Aves que sentenciou o jogo. 

1. William Carvalho. Desde que regressou, após a lesão, o médio não foi o ‘plus’ habitual. A elegância e a vontade estiveram lá, mas a ordem, o critério, a dinâmica, a pujança e a visão não atingiram os níveis de qualidade que ele tem.

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