Visão de jogo

António Oliveira

António Oliveira

António Oliveira

De troca em troca

Estabilidade no comando técnico é uma expressão ou ideal que parece não existir para a maioria das equipas de futebol profissional portuguesas. Nos dias de hoje, completar uma temporada ao serviço de um clube é um verdadeiro desafio para os treinadores. Longe vão os tempos em que podiam levar a cabo projetos a médio e longo prazo, bebiam a cultura e identidade do clube e faziam crescer a sua equipa de forma pensada. Agora parece reinar o imediatismo.

O curto prazo passou a prioridade máxima. Os dirigentes procuram resultados positivos no imediato e, à menor indicação de que coisas não estão a correr bem, o benefício da dúvida de que as coisas vão melhorar não é dado, e parte-se para a decisão de mudança, sendo que nem sempre os resultados acabam por ser os esperados. Num mercado de futebol tão ‘mexido’ ao nível das transferências de jogadores, o mercado e os seus agentes parecem também apontar agulhas para o comando técnico e acabam por influenciar as decisões dos clubes.

Numa altura em que o treinador português se afirma lá fora, com vários bons exemplos, parece existir uma crise de confiança dos clubes nacionais na capacidade dos nossos técnicos, o que constitui um certo paradoxo, já que não lhes é dado o devido tempo para que possam mostrar o que valem e a evolução positiva do seu trabalho. A cobrança é feita cedo de mais. E está ainda por se estudar com maior profundidade se as chicotadas psicológicas resultam em melhores ou piores resultados para os clubes.

Rui Vitória (Benfica), Nuno Espírito Santo (FC Porto), Jorge Jesus (Sporting), Pedro Martins (V. Guimarães) e José Couceiro (V. Setúbal) são os 5 treinadores resistentes do principal escalão, os únicos que marcaram presença em todas as jornadas do campeonato. Os restantes 13 clubes já mudaram, o que representa uma época marcada por um anormal número de danças de cadeiras. E não deixa de ser curioso que os 5 resistentes estejam classificados no top 8 da Liga, o que mostra que a estabilidade pode dar frutos (entre estes apenas o Sporting está abaixo do que esperava).

Na 2.ª Liga, o fenómeno é idêntico. Entre os 22 participantes, 14 clubes já efetuaram alterações na equipa técnica por uma ou até mais vezes. Até o Desportivo das Aves, segundo classificado e com boas perspetivas de alcançar a subida na época em curso, optou esta semana por prescindir dos serviços do seu treinador. A racionalidade e a lógica nem sempre obedecem aos mesmos critérios de avaliação com que se regem os clubes.

Possivelmente estamos a assistir a uma mudança de mentalidade no dirigismo desportivo português, onde reina alguma impaciência e se procuram resultados imediatos. Os números pelo menos dão conta disso: 27 das 40 formações de futebol profissional realizaram trocas de treinador ao longo desta época. Estamos a falar de quase 70%.

Este é um assunto que talvez merecesse uma maior reflexão por parte dos responsáveis do futebol português. Regular a mudança de treinadores, criando alguns limites a estas trocas desenfreadas, poderia ser importante para a sustentabilidade da indústria e das próprias carreiras dos técnicos que nada ganham ao acumularem despedimentos precoces no currículo, colocando em causa a sua competência. O atual cenário é que não prestigia o treinador nacional.


O craque -- Guardião que dá vitórias

Uma exibição inspirada de Ederson permitiu travar a máquina trituradora do Borussia Dortmund e garantir ao Benfica uma preciosa vantagem de um golo para o jogo da segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O guardião tapou todos os caminhos da sua baliza, acumulou defesas ‘impossíveis’ e até um penálti parou. A seleção do Brasil tem estado atenta à sua evolução e, pela amostra, deve estar satisfeita. A jogar assim na montra internacional, não deve tardar a cobiça dos tubarões europeus por este talentoso guarda-redes.


A jogada -- Lobo em pele de cordeiro?

Rui Vitória foi, sem margem para dúvidas, uma das principais figuras de 2016. Venceu o campeonato em ano de estreia ao serviço de um grande, conseguiu superar as dificuldades iniciais e mostrou sempre um comportamento correto e exemplar, mesmo quando surgiram provocações de outros quadrantes. E em relação a arbitragens sempre teve um discurso sério, cordial e moderado. Surpreendem, por isso, as palavras que constam no relatório do árbitro do jogo das meias-finais da Taça da Liga com o Moreirense. Uma faceta que até agora se desconhecia do técnico do Benfica e que não condiz com o comportamento anterior.

A dúvida -- Não faz sentido

Francisco Geraldes estava a realizar uma grande época em Moreira de Cónegos. Foi mesmo um dos jogadores em maior destaque da primeira volta. Após a conquista da Taça da Liga pelos minhotos, o médio regressou ao Sporting e acabou por ser utilizado... na equipa B. Por mais que se percebam as dificuldades da formação secundária, em lugares de descida na 2.ªLiga, a gestão e motivação do atleta não parece ter sido a melhor. Além disso, de que forma pode o regresso à equipa B, onde Francisco Geraldes já jogou durante duas épocas, contribuir para o seu crescimento?

16.02.2017
M M