Análise ao Sporting-FC Porto

Bernardo Ribeiro

Bernardo Ribeiro

Diretor adjunto
Bernardo Ribeiro

Mais dragão enquanto houve pernas

O FC Porto foi a melhor equipa em Alvalade. Não foi sempre, pois foi mais incompetente do que os leões em momentos importantes, nomeadamente na finalização, mas enquanto houve pernas de um lado e do outro, o dragão foi melhor. Bastante melhor, diga-se.

Com esta exibição personalizada em Alvalade, em que o empate só pode saber a pouco, fica definitivamente carimbada e com selo de qualidade a candidatura do FC Porto ao título e a nomenclatura de Sérgio Conceição como um técnico interessantíssimo de seguir. A forma como os dragões manietaram o Sporting e tiveram o jogo do seu lado nos primeiros 45 minutos foi gritante.

O FC Porto não só ganhou a batalha do meio-campo na 1.ª parte como foi ganhando quase todas as outras, menos a definitiva, aquela em que os avançados nunca conseguiram bater Rui Patrício. Mas aqui não se fala de qualidade de jogo mas de talento individual. Foi só esta.

Sérgio Conceição parece ter aprendido muito com a derrota caseira frente ao Besiktas. Talvez o técnico do FC Porto estivesse convencido de que o talento e dinâmica das suas pedras nucleares eram mais do que suficientes para bater a equipa turca, mas aquele banho de humildade parece ter trazido novas perspetivas a Conceição, nomeadamente na abordagem ao jogo e colocação das peças no tabuleiro.

Na 1.ª parte o FC Porto foi mais intenso, mais dinâmico, dominador em quase tudo, menos nos cantos. Aliás, aí houve mesmo uma grande diferença até final. Mas a verdade é que nem leões, nem dragões, conseguiram fazer a diferença também nas bolas paradas.

O FC Porto não deu quaisquer veleidades ao Sporting na saída de bola e com William e Battaglia bloqueados, sem Coentrão e com Mathieu pouco à vontade para se aventurar na saída só em transições, o Sporting conseguia chegar a Casillas. Do outro lado, Filipe imperial, Danilo agregador e poderoso (apesar das queixas ao intervalo) e Brahimi com a centelha do génio que faltou nos locais, fez com que houvesse sempre mais Porto. Com chances claras.

O intervalo trouxe equilíbrio, pois o dragão quebrou um pouco fisicamente. A pagar o jogo no Mónaco ou demasiado esforço na 1.ª parte? Uma questão que fica por responder.

Sérgio saiu de Alvalade convencido que tem equipa para dar aos portistas o que eles mais desejam: o título. Uma defesa forte, um meio-campo musculado e talentoso, um ataque impactante, ainda que nem sempre decisivo. Já Jesus tem questões para resolver. Como ter saída com William bloqueado, pois Battaglia tem dificuldades; como dar dinâmica à esquerda quando não há Coentrão; ver o que se passa com Bas Dost, jogador que anda uma sombra do que se viu na época passada.

A certeza que fica? O campeonato vai ser longo e parece haver equilíbrio nos pretendentes, caso ninguém caia no abismo.


Ver presidentes juntos na bancada

Fala-se muito da aliança Sporting-FC Porto mas, esta semana, ela foi testada não só em termos desportivos como na comunicação, como se viu na questão Jesus-Conceição. Pois bem, o facto de Bruno de Carvalho e Pinto da Costa terem assistido ao jogo lado a lado tem de ser visto como positivo. A normalização de relações entre os clubes nem devia ser notícia.

A ‘tal’ qualidade dos plantéis

Muito se fala dos poucos recursos colocados à disposição de Sérgio Conceição. A verdade é que, olhando ao jogo de ontem e respectivos bancos, vemos como o técnico e a SAD portista souberam trabalhar bem e recuperando o que tinham, construir um grupo fortíssimo. Atrevo-me a dizer que ontem havia mais qualidade no banco azul do que no verde. E o triplo do dinheiro investido. É fácil, é só fazer as contas.

Ter Coentrão ou Jonathan Silva

São poucas as equipas que têm no suplente alguém capaz de rivalizar com o titular, mas no Sporting a diferença nos laterais-esquerdos é imensa. Ter Coentrão é totalmente diferente de jogar com Jonathan. Há um abismo entre ambos. Mas os problemas físicos do internacional português não ajudam. Uma questão que pode ser importante.

NOTAS DE RODAPÉ

5 - Rui Patrício foi enorme. É verdade que o Sporting podia até ter ganho, pois o FC Porto não conseguiu fazer golos. Mas o empate, esse, terá de ser atribuído muito ao trabalho do guarda-redes do Sporting. Inexpugnável. Exibição brilhante.

4 - Carlos Xistra fez uma excelente exibição, também ele. Estamos sempre prontos para ‘cascar’ nos árbitros quando eles erram. Pois há que dizer que ontem, num jogo que é sempre difícil de apitar, o juiz esteve exemplar. Bem bom.

3 - Num jogo que terminou sem golos e onde Rui Patrício já teve elogio, uma palavra para as duas duplas de centrais. Coates/Mathieu e Filipe/Marcano é do melhor que temos no futebol nacional. Pedras basilares dos dois onzes.

2 - Battaglia foi uma das unidades de menor rendimento no Sporting. Muito pouco esclarecimento a sair a jogar e menor influência, mesmo a defender, do que tem sido hábito. Talvez a pagar o esforço de ter andado a ‘tapar’ Messi.

1 - Triste minuto de silêncio. Entendo que se batam palmas quando são artistas, mas não custa nada respeitar alguém no momento em que se despediu da vida. Um passo cívico que custa entender, porque há gente que não o dá. É feio.

02.10.2017
M M