A flauta de Conceição

Cumprido que está quase um quarto do campeonato, o FC Porto é maioritariamente visto, nesta altura, como a equipa portuguesa mais saudável, maciça e potente. Em suma, a mais convincente, como voltou a ficar patente em Alvalade. O que só vem provar que o tempo, no futebol, não segue tanto o escantilhão das horas, meses e dias imposto pelo calendário gregoriano, antes a medida e o padrão das vitórias e das exibições conseguidas sobre a relva. A verdade é que poucos foram aqueles que, há apenas três meses, arriscaram antecipar um cenário tão taxativo e auspicioso. Antes pelo contrário. Não faltou então quem depreciasse um FC Porto intervencionado pela UEFA e incapaz de cumprir as regras do fair play financeiro, num processo de quase bancarrota que só lhe permitiu investir 1 milhão de euros num guarda-redes que nem sequer foi inscrito nas provas europeias (de facto foram 21 milhões, se levarmos em conta o pagamento da cláusula obrigatória de Óliver). Para tentar disfarçar as contas a vermelho, houve ainda necessidade de transferir os promitentes Rúben Neves e André Silva e de libertar Diogo Jota, cedido pelo Atlético Madrid, o que, juntamente com a posterior venda de Martins Indi, permitiu um encaixe superior a 70 milhões de euros (mesmo assim longe dos 120 milhões previstos no orçamento) e, provavelmente, uma ligeira redução na folha salarial, até então a mais alta do futebol português. Este cenário de contenção dificultou o processo de substituição de Nuno Espírito Santo, sabendo-se hoje, por exemplo, que a principal razão que levou Marco Silva a recusar o convite de Pinto da Costa terá sido precisamente a contração substancial no investimento. E foi neste contexto de vacas magras e até alguma descrença que Sérgio Conceição foi apresentado. Haverá hoje, provavelmente, quem tenha a tentação de relacionar o arranque fulgurante e invicto do FC Porto (bem como os tropeções sistemáticos do Benfica) com a estratégia de guerrilha verbal sem tréguas que, toda a gente percebeu, visa alterar o atual quadro de forças tóxicas do futebol português. Mas carregar demasiado nessa (falsa) tese não é apenas um exagero e um despropósito. É, principalmente, um enorme desrespeito cometido sobre Sérgio Conceição, indubitavelmente o responsável mais prevalecente na metamorfose. No máximo, a estrutura poderá reclamar os méritos da escolha de um treinador que do pouco tem sabido fazer muito, confirmando-se, de resto, que a gestão portista funciona melhor quando há pouco dinheiro para gastar (e estragar…).

Sérgio Conceição foi inteligente desde o primeiro dia. Ganhou os créditos da generalidade dos adeptos logo na apresentação com uma mensagem clara, assertiva, ambiciosa e destemida. E, percebeu-se depois, obteve o mesmo efeito junto de um plantel que o escolta da mesma forma dócil e obstinada com que as crianças seguiam a flauta de Hamelin. O técnico portista provocou, de imediato, um efeito libertador – não sendo por acaso que Brahimi se mantém de cabeça limpa e a jogar para o coletivo e não para si próprio, como por vezes acontecia. E isso terá sido ainda mais decisivo na conversão de um Aboubakar que na época anterior não tinha sido respeitado. O resto, o treinador conseguiu-o no campo, onde, desde a primeira hora, se viu um FC Porto que entra (quase) sempre com pressa de marcar. Foi essa a primeira imagem de marca, conseguida à custa de uma maior tração à frente, de combinações simples e ataques rápidos (com os laterais projetados por vezes em simultâneo), uma boa reação à perda e muita presença na área, talvez o fator que mais o diferencia da herança recebida (da qual soube aproveitar o melhor da organização defensiva). Quem, no passado recente, lidou minimamente com Sérgio Conceição percebeu que ele se achava algo desrespeitado por quem não o incluía na primeira linha das novas fornadas de treinadores portugueses e o considerava um técnico eminentemente de contra-ataque e transições rápidas, ideia que cresceu nas passagens por Braga e Guimarães. Mas quem esteve suficientemente atento ao seu excelente trabalho no Nantes já tinha descoberto que essa era uma visão redutora e injusta. Sérgio privilegia um futebol com gente que lhe garanta vitalidade e poder enérgico (e é por isso que Marega é hoje um jogador muito mais útil do que alguma vez poderia ter sido com NES), não tem a obsessão do controlo que tinha o seu antecessor, mas nem por isso abdica de um futebol combinativo e variado. E a derrota com o Besiktas, que poderia ter sido a confirmação final de uma equipa construída e talhada para consumo interno, acabou foi por ser o ponto de partida para uma nova fase em que Conceição faz prova da sua maleabilidade e argúcia tática. Os jogos no Mónaco e em Alvalade (onde acrescentou a vitória moral ao ponto conquistado) transportaram o FC Porto para uma nova dimensão e para uma ordem de grandeza que já não tem apenas a ver com jogadores comprometidos e com fome de glória. Antes com aquilo que distingue as boas equipas. E os melhores treinadores.

***** - Manuel Fernandes é selecionável

Depois do hat trick na Liga Europa, Manuel Fernandes contribuiu com mais um golo (o sétimo na liga russa) na vitória que deixou o Lokomotiv de Moscovo a dois pontos do líder Zenit. Aos 31 anos, continua a provar que tem classe. Até para a seleção.

**** - Marcelino deu vida ao Valencia

Marcelino Toral continua a burilar um Valencia, que abdicou de alguns nomes sonantes e preferiu rentabilizar Rodrigo (primeira chamada à seleção espanhola) e Gonçalo Guedes. Somou a terceira vitória seguida e segue no terceiro posto, à frente do At. Madrid e do Real.

*** - Carvalhal repôs o bom senso

O futebol inglês está a perder alguns dos bons hábitos e só assim se compreende que o trabalho magnífico de Carlos Carvalhal (à frente de um Sheffield sem as armas dos principais rivais) possa ser questionado só porque perdeu dois jogos e empatou um. O 3-0 ao Leeds repôs a normalidade…

** - Os insultos a Piqué

É difícil antecipar qual será o futuro de Piqué na seleção espanhola (ontem foi assobiado e insultado pelos adeptos no treino). Mas é impossível ficar indiferente à sua coerência e à forma emotiva como reagiu à atuação da polícia na Catalunha.

* - Bayern anda pouco germânico

Depois de uma semana negra (três jogos sem ganhar e despedimento de Ancelotti), o Bayern de Munique debate-se com a notícia do Kicker, segundo a qual alguns jogadores que não confiavam nos métodos do italiano andaram a treinar às escondidas. Tudo muito pouco alemão…

03.10.2017
M M