As maleitas do Benfica

Luís Filipe Vieira produziu, no final de julho, um conjunto de declarações que, na altura, não foram suficientemente absorvidas pelos adeptos mais arrebatados com a conquista do tetra. E, de facto, nada melhor do que um momento de deslumbramento germinado por uma conquista rara para deixar cair que "o mercado está louco" e o Benfica "não vai parar de vender enquanto não tiver o controlo da dívida". Para que não ficasse réstia de dúvida, o presidente foi ainda mais translúcido: "Podemos hipotecar um título, não podemos hipotecar o futuro". Ao contrário do que tantas vezes acontece no futebol, não foram frases frívolas e meramente panfletárias. Vieira tinha mesmo incorporado que os quase 500 milhões de euros de passivo estavam a transformar-se num cabouco sem fundo e, por isso, demasiado perigoso, principalmente desde o colapso de uma banca que fechou a torneira e passou a reclamar os créditos. E, de facto, se estivéssemos a falar de uma outra qualquer indústria que não o futebol não faltaria quem continuasse a bendizer a SAD pela coragem e desassombro. É verdade que, na altura, ninguém se insurgiu contra um plano que fez com que o Benfica encaixasse mais de 130 milhões de euros e gastasse pouco mais de 8 milhões, o nono investimento mais baixo entre os 32 clubes que se apuraram para a Liga dos Campeões. Mas hoje já não falta quem fustigue o apertar do cinto. Após uma pré-época já de si dececionante, o empate em Vila do Conde e as duas derrotas frente ao CSKA e ao Boavista roubaram o positivismo mesmo àqueles benfiquistas que, por uma questão de princípio, se recusam a comprar um eletrodoméstico a prestações.

Mas, o que os desconsolados benfiquistas não perceberam é que os resultados negativos não são tanto consequência da redução das verbas disponíveis para contratações, antes de um conjunto de outras opções, algumas ideológicas e provavelmente majoradas por algum deslumbramento e pela sobranceria de quem se achava muito superior à concorrência. Desde logo as baseadas na ideia de que "o Benfica soube ser autossuficiente", um bordão também promovido por Vieira em julho. O presidente do Benfica acreditou que a ‘fábrica’ do Seixal teria uma capacidade de produção de talentos suficiente para suprir a generalidades das saídas. E que, nas raras vezes em que isso não acontecesse, haveria sempre um ‘scouting’ capaz de descobrir pechinchas à imagem de Lindelöf, Ederson ou Oblak. Mas nenhum clube se mantém competitivo durante muito tempo se forçar a ideia de que é 100% autossustentável e de que consegue renovar-se apenas com jogadores produzidos na sua formação ou, em alternativa, com talentos descobertos ainda com a casca de ovo na cabeça. E forçar não é um excesso linguístico principalmente se levarmos em conta que o Benfica perdeu três titulares do seu quinteto mais recuado. Ora, acontece que foi capaz de encontrar livre no mercado um avançado já suficientemente maduro, rodado na Bundesliga e com o selo de garantia da seleção suíça. Contratar Seferovic era, de facto, uma chance que não podia ser desaproveitada, mesmo levando em conta que o Benfica já tinha avançados para dar e vender. Mesmo a saída de Mitroglou foi compensada com Gabriel Barbosa, alternativa interessante a Jonas. Ora, sabendo-se que os títulos se ganham com avançados e se defendem com defesas, a pergunta que se impõe é porque não houve a mesma diligência nos restantes sectores? Foi temerário sugerir que o treinador iria conseguir que Buta, Kalaica e Varela se transformassem, num estalar de dedos, em réplicas perfeitas de Semedo, Lindelöf ou Ederson. Tão ou mais incompreensível foi o processo de seleção de Hermes e Pedro Pereira, principalmente este, escolha do presidente que obrigou à vinda apressada de um Douglas ainda por estrear. Isto já para não falar no falhanço bizarro da contratação do guarda-redes André Moreira (posteriormente substituído pelo também jovem Svilar). A estrutura extasiou-se com os seus próprios méritos ou foi Rui Vitória que não foi suficientemente reivindicativo? Provavelmente um pouco de tudo.

Mas, atenção, o Benfica continua a ter um plantel com qualidade suficiente para jogar mais e melhor do que vem fazendo, como, de resto, provou em vários períodos da primeira parte no Bessa (deliciosa a sociedade ‘esquerdista’ entre Grimaldo e Zivkovic). Já não há uma diferença tão marcante como no passado recente, principalmente para o Sporting, mas também é na limitação que se releva o mestre. E se, no final da época passada, na hora dos festejos, deixamos aqui isso expresso que o Benfica mantinha deficiências e disfunções (principalmente na construção) que já deviam ter sido resolvidas ou, pelo menos atenuadas no treino, temos agora de acrescentar outras maleitas ao diagnóstico. Porque este Benfica não sabe gerir as vantagens, não sabe mudar o rumo dos jogos e deixa que os mesmos fiquem perigosamente ‘partidos’. E faz substituições que não lembram ao diabo, como aquela de Zivkovic no Bessa. Semear avançados lá na frente qualquer um faz.


Cinco estrelas

Dybala tem talento e golo

Dois "hat tricks" em apenas quatro jornadas não estão ao alcance de qualquer um. Conseguiu-o Dybala, que voltou a brilhar frente ao Sassuolo e já lidera a lista de melhores marcadores do "calcio", com oito golos. O craque da Juve tem um talento inversamente proporcional à estatura.

Quatro estrelas

Falcao continua a responder

Acarinhado por Leonardo Jardim, Falcão continua a responder a quem lhe anunciou a (falsa) decadência: mais dois golos (e uma assistência) frente ao Estrasburgo. Está à frente de Cavanni nos marcadores, com 9 tentos em 6 jogos, marca que já não se via há 40 anos na liga francesa.

Três estrelas

Jota talhado para outros voos

Diogo Jota marcou os dois golos que ajudaram o Worverhampton de Nuno Espírito Santo a bater o N. Forest e a subir à liderança (a par do Leeds). E o L´Equipe, que o incluiu na lista dos melhores 50 sub 21, já diz que o Championship é curto para ele.

Duas estrelas

Vida difícil para André Gomes

André Gomes era desejado por grandes equipas europeias, mas o mercado fechou antes de o médio português conseguir que o Barça o cedesse. Resultado: frente ao Getafe não saiu do "banco"e Valverde nem o convocou para o jogo com o Eibar.

Uma estrela

O drama de Adrien

Que os jogadores têm de estar cada vez mais vigilantes na gestão do seu futuro prova-o a situação complicada em que continua Adrian Silva. Por 14 segundos não foi inscrito pelo Leicester, que ainda nem lhe deu autorização para treinar. O treinador Craig Shakespear também desespera.

18.09.2017
M M