BdC não deve ficar refém de Jesus

Imediatamente após a rechonchuda vitória nas eleições do Sporting, Bruno de Carvalho (BdC) reconfirmou que ganhar mais do que um título no próximo mandato de quatro anos é mesmo uma promessa plenamente assumida e para levar a sério. Voltou a falar no plural, no que foi entendido como uma bravata eleitoral que lhe pode vir a custar caro. A verdade é que, desta vez, a declaração de princípio do presidente leonino não teve nada de tóxica ou de masoquista. Pelo contrário, foi astuta e clarividente. Primeiro, porque a obrigação de ser campeão no segundo mandato seria sempre efetiva mesmo que BdC não a assumisse tão declaradamente. E, depois, porque se nos próximos quatros anos conseguir apenas um título nacional já estará a ganhar na comparação com o longo jejum dos 15 anos que o antecedeu, o que será bastante para o deixar numa posição privilegiada para atacar e gerir uma possível reeleição. Em suma, BdC soube rentabilizar eleitoralmente com esperteza uma declaração aparentemente ambiciosa e até arrojada, mas que, de facto, não lhe onera grandemente as suas obrigações e responsabilidades.

Deste escrutínio resultou uma certeza ainda mais límpida e incontestável: anunciar a saída de Jorge Jesus funcionou como um haraquíri eleitoral para Madeira Rodrigues. Desde logo, porque o candidato desafiador se foi entaramelando em soluções fantasmagóricas para resolver a rescisão com o atual técnico. E até os adeptos sportinguistas que enjeitam Jesus e gostariam de o ver pelas costas perceberam o perigo: a possível eleição de Madeira Rodrigues implicaria quase de imediato uma reparação milionária ao treinador despedido sem justa causa. Acresce que Bölöni e Juande Ramos, sendo dois nomes mais do que respeitáveis, não impressionaram o sócio comum. Verdadeiramente, Madeira Rodrigues só esteve bem no debate (até porque, nesse dia, BdC pareceu derreado e envergou uma fatiota que não lhe servia). A falta de suporte de algumas propostas notou-se designadamente na promessa de recuperação das VMOC, enquanto os ataques sanguinolentos a José Maria Ricciardi pecaram por excessivos e pouco sustentados. E a promessa de contratação de Taison já foi vista como uma medida de desespero de um projeto esfarrapado. Madeira Rodrigues sai do processo como um adepto bem-intencionado, mas que terá sempre dificuldades em anular a imagem de cordeiro num mundo do futebol em que parecem só sobreviver os lobos.

Os sócios escolheram de forma categórica BdC porque acham que o sucesso só será possível com uma liderança truculenta e, aqui e ali, mesmo malvada. Boa parte desses adeptos depreendem-no até em função do que entendem ser a principal razão da distribuição da glória pelo Benfica e pelo FC Porto. Como diria o espanhol Javier Marías, as histórias do futebol são sempre selvagens e sentimentais e quem estava à espera que BdC concluísse o discurso da vitória sem soltar alguma acidez nunca entenderá as idiossincrasias do presidente do Sporting e, nada despiciendo, a principal razão da sua popularidade. E isso sobrepõe-se mesmo entre alguns mais urbanos que dispensavam o remanescente de populismo e demagogia. Hemingway dizia que são necessários dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar e Bruno de Carvalho ainda vai nos 45… Exigir comedimento a Bruno de Carvalho é, por isso, mais ou menos como pedir uma "vichyssoise" numa taberna minhota – o melhor mesmo é apreciar logo a serventia do caldo verde a ferver e com a rodela de chouriço… Foi também esse o sentido prático da grande maioria dos eleitores sportinguistas.

Mas até os adeptos menos pragmáticos estarão à espera que a SAD leonina resolva algumas imperfeições, até porque, após o último tropeção, foi o próprio Jorge Jesus a garantir que só não tinha sido campeão no seu primeiro ano em Alvalade porque o Sporting ainda não tinha a estrutura suficiente. Mesmo descontando que o mesmo Jesus depreciou a organização do Benfica (o "cérebro" era ele, recordam-se?), talvez seja o momento de BdC passar a rentabilizar e a fixar o treinador naquilo em que ele é mesmo muito bom: a treinar e a orientar a equipa. Aceitar que Jesus se continue a transformar num "manager" à inglesa só servirá para que ele se disperse e que se acentue o rodízio de mais de 80 jogadores contratados nas últimas épocas. Contratar um diretor desportivo que fique no cimo da pirâmide, que conheça o mercado internacional e que, ao mesmo tempo, harmonize as contratações seletivas com o aproveitamento dos melhores talentos nascidos em Alcochete seria um expediente proveitoso. E a única forma de cumprir a promessa eleitoral de apostar de forma inteligente na formação. A dúvida é descobrir até que ponto BdC está refém de Jesus e tem margem de manobra para o fazer.


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06.03.2017
M M