Conceição e o futebol monocromático

Quando se vê a urgência e a aceleração que o FC Porto tenta meter no seu jogo desde o primeiro minuto, como se o objetivo fosse obrigar o adversário, logo ali, a levantar a bandeira branca, o que mais salta à vista é o contraste com o modelo anterior e a empatia que isso provoca nos adeptos. Mas os portistas agora monarquiados por Sérgio Conceição mais não fizeram do que aderir também a um caminho que há muitos anos começou a ser trilhado em Portugal por Jorge Jesus. Uma tendência que, de resto, deu sustentação aos últimos quatro títulos do Benfica. E, se quisermos ir ainda mais longe, poderíamos até dizer que esta moda algum magnetismo especial terá de ter para conseguir a aquiescência, em simultâneo, dos três principais clubes portugueses ao mesmo sistema (4x4x2) e a idêntico jogar. Esta tendência monocromática tem explicações várias, mas há uma que se sobrepõe: há uma diferença tão grande de qualidade entre os três principais clubes relativamente à generalidade dos adversários que acaba por compensar o investimento em equipas que abdiquem de algum equilíbrio defensivo em favor da vertigem ofensiva. O risco acaba por ser compensador a quem passa grande parte dos jogos em organização ofensiva, não sendo por acaso que o Braga de Abel Ferreira já dá sinais de ir alinhar por idêntico diapasão. E não parece grande risco antecipar que o FC Porto irá, provavelmente, sofrer mais golos do que na época passada (19), mas irá seguramente ultrapassar os 71 que marcou nas 34 rondas. E isso poderá ser suficiente para evitar boa parte dos dez empates (além das duas derrotas) que os portistas registaram. A dúvida é se será suficiente para melhorar um campeonato em que os portistas lutaram pelo título até à penúltima jornada, pormenor desvalorizado em excesso por quem não percebeu os constrangimentos com que se debateu Nuno e preferiu ver nele o rosto de todos os males. Mas, como diria Agustina Bessa Luís, os homens têm sempre necessidade da culpa porque ela funciona como um excitante para criar.

Conceição é dos que gostam que o futebol seja jogado com alegria nas botas e uma faca entre os dentes. Nuno, por seu lado, impôs um modelo laborioso, que mostrava ciência no treino, mas que pecou sempre por demasiado rotineiro, num picar de pedra que foi levando à perda de precisão. Prevalecia o pragmatismo, o FC Porto jogava na maior parte das vezes com critério e ofício, expediente proveitoso na Champions e nos encontros mais difíceis, mas que nos restantes fazia o FC Porto tardar a chegar ao jogo. Agora há uma equipa quase com todos os mesmos cromos, mas há uma sede e uma premência de levar os antagonistas ao esgotamento. É um jogo presidido mais pela pressão do que pela elaboração, embora continue a iluminar-se quando a bola chega aos pés de Brahimi, que exerce de Asterix futeboleiro. Hoje, o FC Porto assume o meio campo com apenas dois médios, mas o próprio Danilo passou a ter maiores responsabilidades na organização ofensiva (papel em que não está ainda confortável). Ao contrário do que acontecia na maior parte das vezes com Nuno, joga com dois extremos verdadeiros, mas ambos procuram terrenos interiores, o que ajuda a potenciar as combinações simples e as subidas dos laterais, que muitas vezes se projetam em simultâneo. Acresce ainda o AS (Aboubakar+Soares) na frente de ataque, dupla que parece complementar e que oferece dimensão física, destreza, mobilidade e provavelmente os golos que faltaram na época passada. Tudo junto e conjugado garante não só maior tração à frente, mas também mais presença na área adversária, uma das pechas com Nuno. Para Conceição, o futebol é esforço, solidariedade e até sacrifício, uma fórmula que visa desgastar os sistemas nervosos dos adversários. Mas a sua passagem pelo futebol francês provou que o seu reportório é mais vastos do que muitos pensariam, tendo-se visto um Nantes capaz de apresentar um futebol mais elaborado e não apenas restrito ao contragolpe. E isso notou-se também no Dragão quando Conceição colocou a lâmpada em gente como Óliver e Brahimi, que dão geometria e génio, até porque o primeiro estava subaproveitado. A maior liberdade e raio de ação destes dois garante uma maior imprevisibilidade e outro aproveitamento do jogo entre linhas. Conceição aproveitou o melhor da herança, designadamente o sólido processo defensivo, manteve o desenho mais usado por Nuno, mas deu-lhe outras valências: mais agressividade na recuperação da bola, mais velocidade na circulação, mais jogadores em situação de finalização e mais pressa em chegar à baliza adversária. Foi tudo isso que se viu na vitória gorda (4-0) sobre o Estoril. Mas em Tondela tudo acabou com um golo solitário porque Pepa mostrou como se pode retirar espaço ao meio campo portista, principalmente a Óliver. E Marcano e especialmente Felipe já sofreram com os problemas na transição defensiva. E ainda falta um verdadeiro teste.

5 estrelas

A bondade do vídeo-árbitro

O vídeo-árbitro vai continuar a ser discutido pelos lunáticos da bola, mas a sua bondade irá impor-se. Até devia caber-lhe a decisão final, em vez de ao árbitro, que tem menos informação. Haverá uma fase de adaptação e quem está em casa ou vê pela TV devia ter acesso à imagem que esteve na base da decisão.

4 estrelas

O génio de Isco

A vida de Isco mudou num ápice: em fevereiro não se sentia importante e queria sair do Real, mas a lesão de Bale serviu para provar que o seu génio é imprescindível. Em Cardiff, em Skopje e em Barcelona confirmou que a renovação milionária é mais do que justificada.

3 estrelas

Neymar está vivo

Pode discutir-se a opção (e o método…) do PSG, mas o talento de Neymar coloca-o no lote dos jogadores raros. Prova-o a forma como se assumiu na estreia (golo e assistência).

2 estrelas

Catalunha sob pressão

A Supertaça espanhola provou que o Barça precisa de se reconstruir, mas a contratação do trinco brasileiro Paulinho não parece indiciar o retomar da sua essência… E lá foram 40 dos 222 milhões…

1 estrela

Ronaldo e relatórios diferentes

O que está mal não é Cristiano ser punido por mostrar os abdominais egocentricos e usar uma liturgia idêntica à de Messi ou ser castigado por empurrar o árbitro após uma expulsão injusta. Mau mesmo é termos memória de Messi ter feito o mesmo e o árbitro não ter escrito nada. Os juízes não podem fazer julgamentos de caráter quando decidem..




14.08.2017
M M