Contra a malvadeza

Nota prévia: este texto vai provavelmente provocar urticária a uma parte importante dos leitores que são adeptos dos três principais clubes portugueses e, mais ainda, ao grosso dos dirigentes que muitos deles ajudaram a eleger. E ainda bem, porque um dos propósitos é precisamente que eles enfiem até às orelhas a carapuça da sua irresponsabilidade e malvadeza. Objetivo ainda mais ponderoso é ajudar a despertar o espírito crítico dos outros, dos que obviamente também gostam de ver triunfar o Benfica, o FC Porto ou o Sporting, mas não aceitam que, para isso, possa valer tudo, até tirar olhos.

A liga portuguesa continuava perigosamente a fluir entre tambores de guerra quando o presidente da Federação decidiu que era hora de dizer basta. "É tempo de parar antes que seja tarde de mais", escreveu Fernando Gomes, para quem "existem sinais de alarme no futebol português" que "resultam numa mistura explosiva". O que é que se viu logo a seguir? O Secretário de Estado do Desporto e a Confederação de Desporto associaram-se ao alerta, o Sindicato de Jogadores e os árbitros aplaudiram a tomada de posição, a Liga prometeu tomar medidas e rever os seus estatutos e os dois partidos mais representativos até pediram uma audição parlamentar. Mas, do Sporting, FC Porto e Benfica, o que mais ressaltou foi o repisar das acusações que os três maiores clubes portugueses andam, sem honra nem vergonha, a trocar há longos meses. É verdade que todos eles também disseram acompanhar as preocupações do presidente da FPF, mas toda a gente percebeu que estavam é a tentar tirar proveito da situação ou, noutros casos, a disfarçar o desconforto. Nenhum deles foi suficientemente magnânimo para reconhecer que, sim senhor, também tem culpas no cartório e que é hora de pensar no bem maior: a sobrevivência e a salubridade do futebol.
Não perceberam, ou não quiseram perceber, que está em causa algo tão ou mais importante do que as transmissões televisivas na BTV, o crime de violação da correspondência digital, a aparente rede promíscua e diletante revelada pelos emails rapinados, o convénio aparentemente espúrio entre o Sporting e o FC Porto, ou as claques que continuam incrível e impunemente por legalizar. E, não sejamos ingénuos, pouco lhes interessa que toda esta podridão se esclareça e seja punida rapidamente, nos casos em que isso se justificar. Porque é precisamente este período de dubiedade e confusão que mais lhes permite promover o ódio e a violência de que fala Fernando Gomes. E quem tiver dúvidas sobre o efeito de contágio que analise com atenção o que muitos adeptos mais influenciáveis logo escrevinharam nas redes sociais. Há componentes tribais fortemente atuantes no futebol e este atual clima de ódio tem obviamente reflexos também entre os adeptos. Fernando Gomes é o melhor presidente da história da FPF, como a recente eleição para o conselho diretivo da FIFA acaba de confirmar. E se desacertou foi por só agora vir dizer, por exemplo, que o constante tom de crítica às arbitragens é inaceitável, que essas críticas escondem insucessos próprios, constituem atos de cobardia e são inspiradas em dirigentes com as mais altas responsabilidades. Faltou-lhe também apontar o dedo a uma parte da comunicação social que promove e dá palco a figuras secundárias cuja única atividade conhecida é alimentar o caos e atirar a imundice para a ventoinha.

Os verdadeiros responsáveis por este pandemónio perigoso atiram as pedras, mas escondem as mãos atrás do twitter ou de diretores de comunicação que vivem num falso nimbo. A verdade é que os diretores de comunicação transformados instantaneamente em paladinos não passam de sintomas inquietantes de presidências mesquinhas e diminuídas. E este é um cenário muito complicado de resolver. Porque é difícil acreditar que os atuais responsáveis dos nossos principais clubes, bem como uma parte dos seus adeptos, normalmente os mais fieis e ativos, ainda possam ir a tempo de amanhar a necessária linhagem desportiva. E, sem ela, nunca irão perceber, como disse um pensador francês, que a fama dos grandes homens devia ser sempre julgada pelos meios que usaram para obtê-la. Esta sensação geral de caos já não se resolve com o agravamento das suspensões disciplinares ou das multas pecuniárias. As primeiras são ineficazes e o dinheiro sai é dos cofres dos clubes, que ainda têm de pagar os advogados. Também não se resolve apenas com a mensagem de solidariedade para com os que "são obrigados a lidar com insultos, ameaças, insinuações e entraves à tranquilidade das suas funções". Porque poucos homens têm a prudência suficiente para mensurar o mal que fazem. Não se devem, por isso, excluir soluções mais radicais: ameaçá-los, por exemplo, com a inelegibilidade (a aplicar a quem ultrapassasse um agregado desmedido de castigos disciplinares) e com a possibilidade de os seus clubes perderem pontos na secretaria em função das prédicas mais graves. Porque essa é a única linguagem que os terroristas da palavra percebem. Para grandes males, grandes remédios…


Cinco estrelas - Multar o PSG não é solução
Hans-Joachim Watzk, diretor executivo do B. Dortmund, tem razão: multar o PSG por não respeitar o fair play financeiro é o mesmo que exigir um depósito de combustível a quem tem poços de petróleo. Só servirá para divertir o Qatar. Outro galo cantaria se, como propõe, lhe tirassem pontos na classificação.

Quatro estrelas - Marco também é "special"
Marco Silva conseguiu a terceira vitória fora de casa, algo inédito num modesto Watford que, à sexta jornada, divide o quarto lugar com o Tottenham e o Liverpool na Premier League. Está a provar que também é "special".

Três estrelas - O polícia de Messi
Cumprindo as ordens de um treinador arcaico, Maffeo andou todo o jogo a perseguir Messi. No fim, o jovem lateral do Girona ainda elogiou a simpatia do argentino: "Perguntou-me a idade e se estava emprestado pelo City". Os craques são assim…

Duas estrelas - Bryan Ruiz e a pena abusiva
O Sporting estava no seu pleno direito quando decidiu prescindir de utilizar Bryan Ruiz. Mas o costa-riquenho também não pode ser forçado a aceitar os destinos que lhe reservaram. Impedi-lo de treinar sequer com a equipa B (fá-lo sozinho com um preparador) é um castigo abusivo.

Uma estrela -Neymar e o soldo pornográfico
O Der Spiegel noticiou o ordenado de Neymar no PSG: mais de três milhões de euros/mês, o que dá 100 mil euros por dia e 4 mil euros por hora. E ainda direito a uma mansão com seis mil metros quadrados e cinco níveis com elevador. Pornográfico.

25.09.2017
M M