Emails e telhados de vidro

Luís Filipe Vieira recorreu ao deboche e às chalaças na sua primeira reação à trama dos emails e da macumba, num discurso que se percebeu ter sido preparado com minúcia por peritos. Foi uma postura sensata e prudente, se atendermos sobretudo à possibilidade de o FC Porto ter mesmo, como ameaça, factos novos mais comprometedores para disseminar. Mas vai chegar a hora em que o presidente do Benfica terá, mesmo, de ser mais esclarecedor e tangível sobre todo este mastodôntico lodaçal que os portistas não se cansam de atirar para a ventoinha. Mas, antes de lá irmos, importa voltar a deixar claro o que deve ser sempre inegociável por quem preza os mais básicos preceitos legais e éticos: a violação da correspondência, sem a respetiva ordem judicial, é um crime cobarde, asqueroso e que não pode deixar impunes os seus autores materiais e morais. Mas essa contenda também acabará certamente por ser dirimida nos tribunais, por muito que haja quem procure minguar a sua gravidade – e não deixa de ser burlesco o facto de o FC Porto e o Benfica terem invertido o argumentário que, sobre esta temática, apresentaram aquando do Apito Dourado (mesmo levando em conta que os métodos, as circunstâncias e magnitude são distintas).

Esmiuçando os emails que vão sendo largados (supõe-se que propositadamente a conta a gotas), o FC Porto começou por tentar passar a ideia de que o Benfica teria engendrado um esquema de corrupção da arbitragem, utilizando para isso a troca de correio eletrónico entre duas figuras menores e em que se passava a ideia de que o presidente do Benfica era o "primeiro ministro" e oito árbitros eram ordenados de "padres". Tudo sem nexo de casualidade e nada de concreto, como se confirmou na forma como a acusação foi sendo acetinada. Mas, como se impunha, o Conselho de Disciplina abriu um processo de inquérito e o Ministério Público, após uma denúncia anónima, já havia feito o mesmo, tendo recentemente reclamado toda a correspondência que o canal televisivo do FC Porto tinha (ou virá a ter) na sua posse. Mas tudo ganhou contornos mais graves quando surgiram novos emails trocados entre o assessor jurídico do Benfica, um delegado da Liga e, também, com o então presidente da Liga, que deu sinais de uma subserviência obscura em correspondência trocada com Vieira. Em nenhum momento foi negada existência destes emails pelos emissores e recetores e, no máximo, houve quem argumentasse terem sido retirados do contexto. Logo a seguir, o antigo presidente da Assembleia-Geral da Liga, Carlos Deus Pereira, também não conseguiu explicar por que razão terá enviado a Pedro Guerra cópias das mensagens SMS que constavam no telemóvel que Fernando Gomes devolveu à Liga quando abandonou a presidência para se mudar para a FPF. Neste caso, o diretor de conteúdos negou tê-los recebido, posição que repetiu a propósito de emails que supostamente lhe terão sido enviados pelo então observador da Liga Nuno Cabral, e onde o FC Porto diz constarem pormenores escandalosos sobre a vida pessoal de alguns árbitros, bem como o preçário de prostitutas. Finalmente, o Expresso divulgou outros emails em que ficou a ideia de que o Benfica tentou "adoçar a boca" a dirigentes dos órgãos disciplinares que julgaram processos que envolviam dirigentes, treinadores e jogadores do clube da Luz. O Benfica reagiu dizendo que eram convites protocolares, mas não foi justificado porque no lote dos convidados para jogos importantes (incluindo uma final europeia) constava o "menino querido" Nuno Cabral, que segundo o mesmo jornal enviou a Vieira o relatório (supostamente confidencial) sobre a prestação do árbitro Rui Costa no FC Porto-Benfica realizado em Maio de 2014. Sobre isto, o Benfica limitou-se a recordar que, à época, era possível aos clubes pedir a revisão da nota atribuída aos árbitros (e que neste caso baixou como raramente se vira).

Aqui chegados, não passa de uma ideia peregrina a hipótese de interromper os campeonatos até que tudo se esclareça. Até porque seria impraticável esperar uma data de anos até que a justiça civil julgue ou arquive os processos judiciais que venham eventualmente a ser abertos. O mais provável é mesmo que a montanha venha a parir um rato. Mas isso não significa que o FC Porto e o seu "assistente" Sporting não tenha já conseguido os seus objetivos. Porque, tal como aconteceu no Apito Dourado, uma coisa é a presunção de inocência e o "in dúbio pro reo" imposta pela ordem judicial e outra, bem diferente, é julgamento da opinião pública. E esse parece ir maioritariamente no sentido de que o Benfica também não resistiu à tentação de tecer uma teia promíscua que lhe garantisse poder, influência e vantagem na gestão da disciplina e da arbitragem. Fica também mais ou menos claro que isso terá acontecido durante a perigosa bagunça em que se transformou a Liga durante a presidência de Mário Figueiredo, o que não deixa de ser uma notícia benigna, uma vez que os agentes mais peçonhentos foram afastados. Mas, atenção, os adeptos mais judiciosos também sabem que o FC Porto e o Sporting mais não estão do que a fazer o papel de (falsas) virgens ofendidas. Até porque todos eles têm telhados de vidro. Verdadeiramente, ninguém quer saber de verdade desportiva e do futebol limpo. É tudo uma luta pelo poder.


Portugal e a fronteira
Portugal trouxe o bronze da Rússia, numa participação que não foi boa e muito menos excelente, mas em que se cumpriu, do ponto de vista dos resultados, os serviços mínimos. Havia três grandes favoritos e Portugal terminou no terceiro lugar, após bater um México que tem uma organização defensiva rudimentar. Foram cometidos erros (o principal foi não poupar mais frente à Nova Zelândia, designadamente os "amarelados" Pepe e Bernardo Silva), mas também há muitas coisas positivas a reter. Desde logo, a confirmação de que podemos ser competitivos mesmo quando não podemos contar com o melhor do mundo. Mas principalmente a ideia de que a Taça das Confederações pode marcar a fronteira entre uma seleção que chegou ao sucesso com uma fórmula conservadora e obcecada com o equilíbrio defensivo e uma outra mais aberta a novas soluções e com um jogo mais franco e combinativo. Fernando Santos é um homem inteligente e já há sinais de que a simples presença de jogadores como André Silva e, principalmente, Bernardo Silva irão compelir à transformação. Aliás, já foram dados sinais nesse sentido e a qualidade futebolística, se excluirmos o primeiro jogo com o México, até foi superior à oferecida no Europeu.

Alemanha latina
Joachim Low venceu em toda a linha: deu férias aos craques, deu credibilidade a um génio como é Goretzka, arranjou o ponta-de- lança que lhe faltava (Timo Werner) e ganhou o ouro com as segundas linhas, dois dias após a Alemanha vencer o Euro de sub 21. Mas, mais do que uma vitória pessoal, foi o triunfo de uma ideia de jogo e de que quem, há quase duas décadas, percebeu que a estatura e o poderio físico já não faziam a diferença e que não havia vergonha em copiar o que a Espanha e Portugal melhor faziam na formação. E agora a criação até já ganha aos criadores.

03.07.2017
M M