FC Porto ainda é obra inacabada

O Benfica-FC Porto foi marcado para o dia das mentiras, mas os dois beligerantes não esperaram pela confrontação na Luz e caíram inoportunamente em emboscadas que se revelaram mais melindrosas do que era suposto. A vanguarda do campeonato acabou por dar uma cambalhota de 360 graus, que parece ter deixado tudo na mesma, mas, de facto, é bem capaz de não ter sido exatamente assim. Desde logo, como diria Marcelo Bielsa, porque o ânimo é um dos fatores mais determinantes na feitura de um resultado no futebol. E se o Benfica tinha visto o seu balão de crença esvaziar-se logo após ter trambecado em Paços de Ferreira, menos de 24 horas depois ele acabou por se empanturrar de um nitrogénio ainda mais esperançoso mal terminou a malfeitoria que o Vitória de Setúbal foi capaz de fazer no Dragão. Resta saber até que ponto irá conseguir restabelecer-se um FC Porto que sofreu mudanças de humores diametralmente opostas e que tem passado praticamente toda a prova em perseguição. Desde a 11ª jornada, quando chegou a ter sete pontos de atraso para o líder, como que tem andado sempre a empurrar um enorme pedregulho pela ladeira acima. E andar tanto tempo a acossar deve cansar imenso a musculatura e os próprios neurónios. Até porque, pelo meio foi sofrendo alguns dissabores, o principal dos quais no início de Janeiro, quando deixou dois pontos em Paços de Ferreira que repuseram o atraso para seis pontos. A encosta parecia então ter ficado irremediavelmente íngreme e resvaladiça, mas a verdade é que o FC Porto ainda fruía daquele que foi o verdadeiro momento de viragem, quando o mancebo Rui Pedro marcou aquele golo milagreiro já no crepúsculo do jogo com o Sp. Braga. Desde aí, apesar dos avanços e recuos, a equipa soube ganhar novas valências, aproveitar os tiros nos pés do Benfica, e acrescentar à reconhecida competência defensiva uma variedade de soluções estratégicas. Que tiveram a ver com as subidas de rendimento de Danilo e Óliver, com a rentabilização da verticalidade de Diogo Jota (que chegou a fazer uma interessante sociedade com André Silva) e, mais tarde, com os golos e a dimensão física que Soares acrescentou. Sair da Champions nos "oitavos" não provocou danos, não só pela convicção antecipada de que a Juventus era melhor, mas também por não se ter repetido a hecatombe exibicional que vitimara o Benfica frente ao Dortmund. Igualmente importante, a equipa portista e os seus adeptos pareciam partilhar um momento de irmandade e de crença que há muito não se via naquelas paragens, mesmo em alturas de festejos finais.

Mas, depois de tanta energia gasta, quando o penedo atingiu o cocuruto e parecia bastar uma ligeira sacudidela para que ele começasse a aproveitar a liderança e a força da gravidade para descer a colina final do campeonato, eis que João Carvalho, o pequeno prodígio de 20 anos que o Benfica mandou rodar para Setúbal, teve um momento de inspiração que funcionou até contra a Lei de Newton. O rochedo voltou para o outro lado da rampa e isso teve o efeito devastador de cem chibatadas nas costas. Percebeu-se isso no olhar descorçoado de Marcano ou num Felipe prostrado na relva. Pode agora o FC Porto retomar a propaganda dos erros arbitrais (e há de facto pelo menos um penálti, mas que só se viu na televisão) ou até acrescentar-lhe a forma impudica como alguns jogadores vitorianos queimaram tempo. Até esta época, o FC Porto somava 27 vitórias seguidas sobre o Setúbal. Nesta perdeu 4 pontos com o Setúbal, que roubou 5 ao Benfica e bateu o Sporting na Taça da Liga. O futebol sadino não empolga, mas que mais se pode pedir a um José Couceiro saqueado de alguns dos melhores jogadores? A verdade é que já na melhor fase portista, durante a primeira parte, se tinham percebido os imensos problemas que o FC Porto sentia para impor o seu jogo interior, não sendo por acaso que seis das oito situações de finalização perigosa criadas nesse período nasceram de bolas paradas laterais ou na sequência destas – curiosamente, o golo magnífico de Corona foi uma das exceções, com Oliver a aproveitar com mestria um corte defeituoso de Frederico Venâncio. Mas do golo do empate até ao apito final ainda se jogaram 41 minutos. E nesse espaço de tempo o que se viu foi uma equipa carregada de nervos, tolhida nos processos e sem a maturidade necessária para dar a volta à situação. Esta equipa portista até pode vir a vencer na Luz e sagrar-se campeã, o que será principalmente mérito do treinador e de um conjunto de jogadores que cresceram com ele. Mas nem isso disfarçará uma verdade incontestável: ainda é uma obra inacabada. E, levando em conta que o orçamento prevê vender jogadores num valor superior a cem milhões de euros, a dúvida é se o deixará de ser tão cedo…


Cinco estrelas - Tripla defesa de Oblak
A tripla defesa (numa só jogada) serviu para Oblack não só ajudar o Atlético de Madrid a eliminar o Bayer Leverkusen da Champions, mas também para confirmar que é mais do que um guarda-redes. O esloveno está no restrito grupo dos verdadeiros craques.

Quatro estrelas - Mourinho mudou mesmo?
Mourinho, em entrevista ao France Football, diz estar diferente, mais sereno e menos variável de humores. E até garante já não pensar 24 horas em futebol. Mas, ao dizer que o Bayern de Munique começa a ganhar a Bundesliga logo no verão, quando compra o melhor jogador do Dortmund, mostra que não mudou assim tanto…

Três estrelas - Ausências nos Sub-21
Quem (como eu) é fã do trabalho de Rui Jorge terá sempre cautelas redobradas na análise das suas escolhas. Mas ainda não encontramos uma justificação plausível para a não convocatória de Gonçalo Guedes e Hélder Costa para os Sub 21.

Duas estrelas -Ideias anti-chicotadas
A liga portuguesa já teve 13 "chicotadas" e 15 mudanças de treinador, só restando cinco das apostas iniciais. Só há duas formas de travar isto: obrigar os clubes a pagarem tudo ao treinador despedido antes de poderem apresentar o substituto; impedir os técnicos de treinarem mais do que um clube por época.

Uma estrela - Trambolhões de Timofte
De Ion Timofte recordo-me de o ver sair das Antas e do Bessa de Expresso debaixo do braço e da facilidade com que comentava a atualidade económica ou a política internacional. Até por isso custa mais descobrir que caiu nas garras dos agiotas e tem a vida de pernas para o ar.

20.03.2017
M M