Jesus e os jeans coçados

O tempo acaba por amadurecer todas as coisas e Jesus, aos 63 anos, também começa a fazer lembrar aqueles jeans que, de tanto uso e lavagens, lá se vão tornando flexíveis e aconchegantes. Andou anos a fio a ser indiciado, no Benfica, de montar equipas frenéticas e sempre em excesso de velocidade, capazes de ganhar três ligas, mas também de perder outras tantas e de fazer fraca figura na Champions. Eu próprio atirei flechas ao que considerava a sua inabalável atração pela vertigem, escolha que subjugava os adversários mais débeis, mas que tinha custos altos frente aos mais egrégios. Alguém disse que um homem que ensina torna-se facilmente um teimoso, mas hoje faz menos sentido acusar Jesus de casmurrice tática. Em boa verdade, a evolução (e não transformação porque falamos de um aperfeiçoamento e não de uma metamorfose radical) notou-se logo no primeiro ano em Alvalade, a melhor obra da sua carreira (rótulo que usámos na altura e que não deve ser alterado só porque falhou, por um triz, o champanhe). Passou então a jogar com os alas mais por dentro, sendo que um deles era João Mário, capaz de funcionar como um terceiro médio sempre que era preciso, num conjunto de detalhes que se mantêm e que aumentaram a proporcionalidade e a firmeza da equipa.

E o ‘upgrade’ mais recente foi a colocação, tanto na Vila das Aves como em Guimarães, de Bruno Fernandes a meio caminho entre Bas Dost e Adrien. Foi a enésima experiência depois de Bryan Ruiz, Bruno César, André, Castaignos, Campbell, Markovic, Alan Ruiz, Doumbia e Podence, sendo que algumas delas significaram um retrocesso e até algum empobrecimento. Não é o caso, entenda-se, de Alan Ruiz, talvez ainda a primeira escolha na cabeça do treinador. Nem de Podence, que tem uma raríssima capacidade para acelerar o jogo e pode perfeitamente brilhar também no corredor central. Mas nenhum deles fará o papel de forma tão complementar como o consegue Bruno Fernandes, que no mesmo jogo pode ser um ‘trequarquista’ desequilibrante e rematador, um ‘oito’ capaz de queimar linhas e até um médio-centro – vimo-lo em Guimarães a substituir Acuña no apoio ao lateral e a anular contra-ataques, isto ao mesmo tempo que dava sinais ao argentino para o substituir no seu papel, algo só ao alcance de quem tem cultura tática. Em Guimarães, não se limitou a marcar dois golos e a ser a figura do jogo: ofereceu um raio de ação tão lato que se justifica falar num sistema tático maquilhado: em muitos momentos acabou por ser mais um 4x2x3x1 do que o habitual 4x4x2 clássico. Bruno Fernandes é um caso raro de maturidade precoce (só tem 22 anos) e isso nota-se na forma rápida como lê o jogo e define bem na maior parte dos casos. Tem um lote imenso de recursos, incluindo o pontapé-canhão que lhe valeu o melhor golo da Liga até agora. Jesus diz que ainda lhe falta intensidade, mas os 8,5 milhões de euros que o Sporting investiu na sua contratação foram dinheiro bem gasto.


Claro que não foi só à custa disso que o Sporting fez gato-sapato de um Vitória de Guimarães diminuído na sua linhagem. Após a goleada, o próprio Jesus reconheceu que nunca havia tido no Sporting uma equipa com tanta experiência e maturidade, não sendo por acaso que a baliza de Patrício se manteve inviolada nos quatro jogos oficiais. Isso pode ser relacionado com a qualidade de treino de um técnico hiperdetalhista como é Jesus, mas terá também muito a ver com a qualidade dos reforços. Veja-se, por exemplo, a máquina de futebol que Jesus conseguiu montar na sua ala esquerda, onde arrisco incluir um central canhoto como é Mathieu: é rápido, forte e suficientemente bom de pés para ajudar a resolver os problemas na primeira fase de construção. Coentrão já está a aproximar-se do jogador que apaixona Jesus e o argentino Acuña pode não incendiar tanto o jogo como outros craques com a mesma origem, mas ganha à maioria na fiabilidade e na raça. Como explicar então os problemas do Sporting nas Aves e frente ao Setúbal e ao Steaua? Qualquer equipa com tantas caras novas precisa de tempo para recuperar a melhor arquitetura. Mas Jesus não pode refugiar-se nessa explicação, porque a instabilidade foi principalmente criada por um técnico que já vai na terceira revolução do plantel (sem contar com as remodelações em janeiro).

Nesse ponto, continua o mesmo, insaciável e permanente insatisfeito (embora tenha razão na mais-valia que representaria a contratação do brasileiro Gabigol). Segundo motivo: o manual de instruções do jogo do Sporting tem código postal e quem o carimba por norma é William. Jesus podia ter resolvido a questão voltando a recuar Adrien, até porque o Sporting dará um valente tiro no pé se falhar a Champions e os correspondentes 20 milhões. Battaglia já esteve melhor em Guimarães, mas foi um risco desnecessário (e eventualmente caro) moldar à pressa um ‘carteiro’ que gosta tanto de conduzir a bola e perder a posição.

*****Neymar está celestial

A exibição sideral de Neymar (dois golos, duas assistências, um penálti provocado e fintas circenses) na goleada sobre o Toulouse provam que o PSG não comprou só um jogador: contratou alguém que enche estádios e vende camisolas.

****Seri já 'mede' 40 milhões

Terá sido o 1,65 m de altura? A verdade é que nenhuma explicação serve para perceber por que nenhum dos melhores clubes portugueses se interessou pelo costa-marfinense Seri quando ele jogava no Paços. Brilhou nas duas épocas no Nice e já há quem lhe chame de ‘Xavi africano’. Aos 26 anos, o Barça vai pagar 40 milhões por ele.

***Mulher de apito

A Bundesliga já tinha muitos atrativos e passou a ter mais um: Bibiana Steinhaus, uma polícia de 38 anos, converteu-se na primeira árbitra de uma grande liga profissional de futebol. Não consta que diga asneiras para se impor…

**O futebol não se acobarda

O Barça, o Betis e os adeptos do clube catalão confirmaram que o futebol sabe ser solidário com os que sofrem, mas também pode e deve ser usado para reagir e afrontar a barbárie cobarde. O medo não é solução.

*Os impropérios de Jorge Sousa

Os impropérios que Jorge Sousa dirigiu a Stojkovic, guarda-redes do Sporting B, são mais comuns no futebol do que muita gente pensa. Mas nem isso torna a situação menos grave. Os árbitros têm de respeitar, se querem ser prezados. Andou bem o Conselho de Disciplina em querer recorrer ao processo sumário.

21.08.2017
M M