Neymar e a urticária

O verão começou com o fantasma da saída de CR7 de Madrid, mas acabamos foi assarapantados com "El fichaje que cambia la historia del fútbol" - como a Marca fez manchete. Neymar ajudou o Barça a ganhar 10 títulos e marcou 105 golos em 186 jogos. É um jogador de fábula, um craque que, como garante Tostão, até poderá vir a ser o melhor da história do Brasil, depois de Pelé. Só um alienado porá isso em causa e também não vale a pena perder tempo a discutir se é insano comprá-lo pelos mastodônticos 222 milhões de euros (sem contar com a incerteza tributária), mesmo que o presidente da Roma diga que "estão a perder a cabeça e pagarão as consequências". Neymar tinha renovado, há menos de um ano, por mais cinco épocas. Não surpreende: hoje os jogadores dão beijinhos nos emblemas das camisolas com a mesma prontidão com que fazem mais uma tatuagem ou trocam de headphones dourados. Mas há duas coisas na ida de Neymar para o PSG que causam urticária. Primeiro, a confirmação de que há pais sanguessugas. Mais do que protetores, são parasitas cínicos e desenvergonhados quando nos tentam convencer de que cobram milhões por supostos serviços de intermediação. Depois, a certeza de que há concorrência desleal protagonizada por clubes participados por capital de procedência árabe, como é o caso do PSG e do City. Para sermos justos, devemos talvez acrescentar um Milan, agora liderado pelo grupo chinês Haxia, que já gastou quase 200 milhões na renovação de Donnarumma e em reforços. Depois do Chelsea e vários outros, são estes os novos ícones do futebol alicerçado no dinheiro fácil e nos jogadores transformados em multinacionais itinerantes.

Os petrodólares que ajudaram a trazer Neymar para Barcelona são, por ironia, os mesmos que agora o roubaram para o dar a Paris. Foi com o dinheiro da Qatar Airways que o ex-presidente Sandro Rosell desviou um Neymar que até já tinha feito os testes médicos a mando do Real Madrid. Rosell, que viria a ser preso por outras malfeitorias, percebeu qual era o melhor atalho: pagou 40 milhões de euros à N&N, empresa da família Neymar. O pai do jogador, Neymar sénior, ficou assim com a parte de leão e o Santos (recebeu 17,1 milhões) e a empresa DIS (detentora de 40%) só tarde perceberam que tinham sido néscios, quando se descobriu que o Barça pagara um total de 96,37 milhões. Não satisfeito, o pai de Neymar conseguiu que no acordo de extensão do contrato até 2021 ficasse estabelecido que tinha direito a receber, até ao final de Setembro, 26 milhões de euros. E toda a gente percebeu que a saída só não aconteceu mais cedo, como era vontade do PSG, porque ele queria receber primeiro do Barça. Reuniu com os dirigentes catalães na digressão aos EUA, andou com eles aos abraços, jurou-lhes fidelidade (tese que o filho corroborou), mas o Barça aguentou-se e até já veio dizer que não pagará. Faz muito bem.

Provavelmente, Neymar pai não ficará a perder, até porque, como disse Wenger, "tudo é possível quando um país é dono de um clube". "De onde sai o dinheiro do salário de Neymar?", interrogou-se o presidente da liga espanhola. A França cerca de 50% de impostos e Neymar vai ganhar 150 milhões limpos nos cinco anos de contrato. Mas, para se perceber por que razão Javier Tebas acusa o PSG de ser um clube dopado financeiramente há que levar em conta que o Qatar investment Autorithy comprou 70% do PSG em 2011 por 50 milhões, logo resolvendo uma dívida antiga de 20 milhões. Passou então a ser presidido pelo catari Nasser Al-Khelaifi, que a Forbes apresenta como um dos cem mais ricos do mundo e que é um braço armado do emir Hamad Bin Khalifa Al Thani. No verão de 2011, o PSG gastou 107 milhões de euros em contratações, 11 vezes mais do que no ano anterior. Nestas seis épocas investiu 940,1 milhões em reforços, só ficando atrás do City: 1.050 milhões. Na época passada, só a massa salarial ultrapassava os 300 milhões, mas as receitas comerciais eram de 480,8, logo atrás do Real Madrid, Barça e United, segundo a Deloitte. Mas como o consegue se só recebe 57,9 milhões da TV, metade de qualquer clube inglês, dos dois principais espanhóis ou do Bayern? Com os patrocínios. O principal na camisola é da Emirates Airline, do Dubai, mas tem também a Ooredoo (empresa de comunicações, com sede no Qatar, uma das maiores do mundo, com mais de 114 milhões de clientes) e o QNB (Qatar Nacional Bank), que também será o banco oficial do Mundial 2022. A última extensão deste último contrato até 2019 prevê a colocação do logotipo nas mangas da camisa e nalgumas zonas do Parque dos Príncipes. O QNA paga 100 milhões /época, o que resolveu o défice de igual valor em 2011/12. É muito dinheiro, sem paralelo na Europa, mesmo levando em conta os jantares exclusivos, no Qatar, que o banco proporciona aos melhores clientes com craques do PSG. Mas a situação mais escandalosa é o contrato com a Autoridade de Turismo do Qatar (QTA). A imprensa espanhola garante que peritos da UEFA no controlo financeiro dos clubes dizem que os 200 milhões recebidos duplicam o seu justo valor. "Sejam criativos", respondeu, há alguns anos, Platini a quem criticava o fair play financeiro. Ora, o PSG levou o conselho à letra… A UEFA diz que vai investigar, mas não o poderá fazer até 1 de Julho de 2018, quando o PSG fechar as suas contas da época. Até lá, poderá vender (Di María, Lucas Moura, Matuidi e Ben Arfa terminam contrato em 2018). E há sempre a hipótese de mais um patrocínio Made in Qatar…

O engenho de Antero

Antero Henrique, que o El Confidencial apresenta como "el silencioso portugués que diseñó la fuga de Neymar al PSG", foi engenhoso. Após tomar o lugar de Kluivert, o novo diretor desportivo percebeu que o PSG só atenuaria a falta de pedigree internacional com a contratação de uma figura planetária. E foi por isso que preferiu Neymar aos também sondados Alexis Sánchez e Mbappé, sendo que o brasileiro tem ainda a vantagem da idade (25 anos) sobre Ronaldo e Messi. Para iniciar a sedução, Antero burilou a estratégia com os empresários Wagner Ribeiro e Pini Zahavi e contou com a preciosa ajuda de Maxwell, um ex-Barça transformado em operacional do mercadejo. O ex-lateral começou por desviar, no último momento, Dani Alves do City. Convenceu-o com o dobro do que ganhava na Juventus - aos 34 anos, vai receber 14 milhões de euros por cada um dos dois anos de contrato. Ora, Dani é um dos principais amigos de Neymar e não demorou a desafiá-lo com as vantagens de deixar de ser príncipe em Barcelona para se transformar no rei de Paris, num processo de sedução há muito iniciado por Thiago Silva, Marquinhos, Lucas e Motta. E Pastore prontificou-se a abdicar da camisola dez. Mas, claro, ainda mais determinante do que escapar à sombra do também amigo Messi, terão sido decisivos os petrodólares que Antero ofereceu a Neymar e ao seu insaciável pai. O hipnotismo de Antero pode ser muito aguçado e eficaz, mas diríamos o mesmo de um recém vencedor do Euromilhões que arrisca numa mesa de póquer (tão ao gosto de Neymar) em que os adversários são todos velhinhos reformados?...

O Barça e os milhões

Desfez-se a MSN, mas o mais importante para o Barça será evitar a errática política de contratações (Santiago Segurola lembrava que, desde Junho de 2016, comprou sete jogadores por 222 milhões de euros, o valor da cláusula de Neymar). E quem tem memória recorda como malbaratou os 61,7 milhões de euros que o Real pagou por Figo em fiascos como Overmars, Petit, Gerard López e Alfonso… Griezmann, Dembelé ou Mbappé? Eu escolhia Coutinho e Dybala. O dinheiro chega para os dois.

07.08.2017
M M