O teorema Benfica

A soberba lição futebolística que o Rio Ave deu ao Benfica (transformado numa equipa fantasma durante 45 minutos) confirmou que, também no futebol, não foi ainda descoberta a quadratura do círculo. É verdade que Luís Filipe Vieira vai certamente acabar na galeria dos presidentes mais resolutos e incontestáveis da história do clube e que, para isso, não precisará de construir um quadrado com a mesma área de um círculo. Dir-se-á ainda que continuou a ganhar campeonatos e taças enquanto foi capaz de vender jogadores num valor global de 444 milhões de euros só nas últimas quatro épocas, algo que está quase ao nível de um teorema platónico. Mas mesmo que o presidente benfiquista continue a provar, com régua e compasso, que consegue reduzir o passivo até perto dos bem mais confortáveis 200 milhões de euros e investir mais 11 milhões na "fábrica" do Seixal, há algo que o jogo em Vila do Conde tornou irrefutável: com as saídas de Ederson, Semedo, Lindelof e a lesão de Grimaldo, o Benfica deixou de ter uma defesa ao nível do que se exige a um tetracampeão e, muito menos, a uma equipa com ambições mínimas na Champions. Como em todas as sequelas do Pirata das Caraíbas, houve um acelerado depauperamento que não foi devidamente acautelado. E não o foi, provavelmente, porque se criou a ideia de que o Caixa Futebol Campus e a indubitável qualidade do "scouting" benfiquista seriam suficientes para resolver a questão. Sem contar com os prémios de assinatura e comissões, o Benfica gastou menos de oito milhões em sete reforços (já contando com o lateral Mato Milos e com o guarda-redes Svilar e sem contar com as promoções e regressos). E até encontrou livre um craque como é Seferovic e médios e alas de elevado potencial, como são principalmente Krovinovic e Willock. O problema do Benfica é que não pode escolher quem vende. É o mercado quem manda e este escolheu um guarda-redes com qualidades raríssimas e defesas que são mais do que defesas. Se tivesse escolhido Mitroglu, Jiménez e Sálvio, havia substitutos tão bons ou melhores. E a diferença percebeu-se logo na pré-época, em que o Benfica sofreu 15 golos, jogou desastradamente e mostrou que Pedro Pereira e Hermes eram erros de "casting". A tudo isto Rui Vitória assistiu sem um queixume. Agora, imagine-se o seu antecessor a lidar com este cenário. Jorge Jesus tem as suas idiossincrasias (se fosse de chocolate comia-se a si próprio), mas já teria arranjado forma de o Benfica abrir um pouco os cordões à bolsa…

O problema é que o empobrecimento no sector recuado não tem apenas implicações com o processo defensivo. Foi também em resultado dessa decadência que o Benfica, em Vila do Conde, não conseguiu fazer chegar a bola em condições às zonas de criação. Claro que isso foi agravado por duas circunstâncias. Primeiro, o Rio Ave tem ideias claras, como diz o seu treinador. Não é daquelas equipas que parecem mais ambiciosas e vorazes quando perdem a bola do que quando a têm. Pelo contrário, sabe jogar com critério e ofício. Mostra como se devora uma baleia, dando uma dentada de cada vez, com paciência e sapiência. Ao invés, do outro lado esteve um Benfica que nunca teve um plano – ou, se o tinha, nunca o aplicou. E é injusto reportar a responsabilidade maior a Filipe Augusto, que nem sequer foi dos piores e até estivera muitíssimo bem frente ao Belenenses. Claro que Fejsa faz falta. Ganha-lhe na colocação e no uso do físico, mas o brasileiro até leva vantagem na construção (e por isso arrisca mais). E querer reduzir a discussão a um jogador é sempre uma falácia.

Rui Vitória faz do balneário a sua paróquia e confia sempre que o génio de Pizzi ou Jonas ou o "killer instinct" de Seferovic e Jiménez resolvem os jogos. Mas as coisas complicam-se quando as individualidades têm relapsos simultâneos. E isso nota-se principalmente frente a adversários com identidade, ideias claras e capazes de pressionar com inteligência. Ou seja, o problema principal do Benfica não é só (ou principalmente?) a veterania de Luisão e Eliseu, os índices lesionais de Jardel, Fejsa e Grimaldo e a adaptação forçada de André Almeida. Isso seria resolúvel ou, pelo menos, dissimulável se a equipa tivesse soluções coletivas (e lá voltámos à velha questão da falta de processo…) que prevalecessem mesmo quando a inspiração individual falha. Assim, quando isso acontece (e já acontecera em Chaves, antes de a equipa de Luís Castro falir fisicamente), o que se vê é um Benfica plano, sem garbo, anárquico, sem capacidade para interpretar o jogo e excessivamente exposto em transição defensiva. É nisto que Rui Vitória tem de se concentrar, ele que ainda não cumpriu a promessa de criar alternativas táticas. Porque os reforços, já se sabe, são matéria presidencial.



Cinco estrelas - Asensio de boa madeira
Sem centrais, o Real penou frente ao Valência, mas o jogo serviu para Marco Asensio provar (se é que era preciso) que é feito da madeira dos craques. Dois excelentes golos que envergonham Bale (assobiado) e uma assunção de responsabilidades que não é normal num jovem de 21 anos.

Quatro estrelas - O toque de Midas de Jardim
O PSG pode gastar loucuras, mas Leonardo Jardim compensa com o seu toque de Midas. O Mónaco encaixou 174 milhões em vendas, mas o madeirense inventou alternativas e até goleou o Marselha, com dois golos de Falcao.

Três estrelas - O regresso de Villa
Prestes a fazer 36 anos, David Villa regressa à seleção espanhola e logo para o importante confronto com a Itália. Como não há Diego Costa, Lopetegui olhou para a MLS, onde o maior goleador da Espanha leva 19 golos em 25 jogos.

Duas estrelas - Vezo cresce em Valência
Marcelino Toral fez uma pequena revolução no Valência, temeu-se a sorte de Rúben Vezo, mas a verdade é que o português não só permaneceu como se impôs a titular. Brilhou frente ao Real e só foi pena a lesão no pé esquerdo. Portugal precisa de bons centrais.

Uma estrela - Wenger sob pressão
O Arsenal reforçou-se, roubou a Supertaça inglesa ao Chelsea, mas parece de regresso à normalidade… Duas derrotas em três jornadas, a última após uma goelada em Liverpool, fizeram regressar as sombras sobre a cabeça de Arséne Wenger, que volta a ser contestado pelos adeptos.

28.08.2017
M M