Os trabalhos de Sérgio Conceição

Nuno Espírito Santo entrou no Dragão com o "Somos Porto" na lapela, mas boa parte dos que, há um ano, tanto lhe haviam apregoado a assinatura da divisa não encontraram agora melhor ato de contrição do que substituir rapidamente o rótulo por outro em que o técnico despedido (sim despedido, porque Nuno só se antecipou ao que lhe estava destinado) acabava drasticamente reduzido à macieza e ao politicamente correto do seu discurso. Ainda mais do que a quarta época de abstinência do FC Porto, o primeiro tetra na história do Benfica teve um efeito devastador na alma e no ânimo dos portistas, que não demoraram muito a comprar a tese que quase transmudou Nuno numa espécie de Tia Nastácia, a cozinheira medrosa (mas de bom coração) do Sítio do Picapau Amarelo. Tentando aproveitar a onda a favor, o administrador Fernando Gomes foi ainda mais arrivista do que quando, há uns anos valentes, acabou desaceitado pela cidade do Porto: tentou justificar os resultados financeiros calamitosos com os desejos do treinador em manter alguns jogadores reclamados pelo mercado, como se a SAD mais numerosa e bem paga do país estivesse desobrigada de fazer o seu trabalho. Quase ao mesmo tempo, Sérgio Conceição deu sinais de ter (re)entrado mais avisado do que Nuno no Dragão. Teve, pelo menos, a destreza de não cair na mesma esparrela. E quando os aduladores costumeiros lhe gabavam basicamente o perfil à Porto (essa charada cabalística que há precisamente um ano também foi usada para justificar a contratação de Nuno), a raça, a ambição e a determinação, Sérgio recusou liminarmente esse estereótipo. Disse que esses traços de carácter (que, de facto, se reconhecem nele facilmente) são importantes, sim senhor, mas mais ponderoso é atuar com inteligência. E confirmou ainda ser arguto ao sublinhar que "isso de se ganhar no grito já não existe". Fez bem em separar as águas e em assumir que se acha capaz para a difícil missão principalmente por ser hoje um treinador preparado, conhecedor e dotado de uma equipa técnica que lhe garante as diversas valências necessárias (muito interessante a integração de Eduardo Oliveira, um professor universitário com muito know-how sobre as metodologias mais progressistas). E basta falar com jogadores que lhe passaram pelas mãos para confirmar a sua maestria. Daí, como acrescentou, não ter voltado para aprender, antes para ensinar.

Não nos recordamos de muitas cerimónias de apresentação de um treinador tão bem conseguidas. Sérgio esteve à altura das melhores recordações de Mourinho, até na forma como impôs uma equipa técnica sem representantes do clube – sem desprimor para Rui Barros, que já prestou muitos e bons serviços ao FC Porto, o novo técnico tem um historial e conquistas suficientes (ajudou a vencer três ligas e uma Taça de Portugal) com a camisola portista para ser ele próprio um garante da tal mística. Ninguém espera que Sérgio se transfigure e que deixe de ser o jovem treinador emocional, apaixonado e a quem a vida cedo pregou rasteiras duras. Mas, aos 42 anos, já entrou na idade madura e deverá saber como preservar alguma da sua genuína intemperança. Até porque haverá no FC Porto quem o queira transformar no porta-estandarte desta onda contestatária sem quartel que, aqui e ali, também procura disfarçar erros próprios. O FC Porto não precisa de um treinador sempre de megafone. Precisa sim de um técnico versado e esclarecido, capaz de circunscrever o balneário e de nele impor a sua legítima autoridade. Quem, como Sérgio, já andou nalguns dos melhores clubes italianos e vai no oitavo ano como treinador estará mais do que avisado. Mas Sérgio também precisa de ter consciência das dificuldades que o aguardam. Porque se boa parte das análises salientam principalmente o risco em que se envolve o FC Porto ao voltar a apostar num técnico (ainda) sem medalhas, no reverso da moeda está o perigo em que o próprio Sérgio cai quando assina um compromisso com um clube debilitado financeiramente e que desde 2012/13 não tem conseguido oferecer aos diversos técnicos (a exceção foi em 2014/15, primeiro ano de Lopetegui) plantéis ao nível do principal concorrente. As sanções impostas pela UEFA (principalmente o corte de três jogadores inscritos nas provas europeias) e a venda dos principais ativos (quem se seguirá a André Silva?) são uma preocupação acrescida. E são constrangimentos imerecidos para um técnico que estava numa posição muito confortável no competitivo futebol francês e que aceitou abdicar de uma parte choruda do contrato entretanto rescindido com o Nantes. Até por disso, a SAD portista tem a obrigação de o brindar com condições mínimas para formar uma equipa competitiva (já se sabe que não há muito dinheiro, o que torna ainda mais obrigatório gastar bem o pouco que há) e não o deixar desamparado na altura das borrascas, o que nem sempre ocorreu a alguns dos seus antecessores.


A vergonha dos emails

A mais recente querela do futebol português é um daqueles estranhos casos que suscita um geminado de sensações. Porque é impossível analisar o conteúdo dos mails trocados, em 2013, entre um diretor de conteúdos da BTV e um ex-árbitro sem, ao mesmo tempo, ficarmos com a impressão de estarmos a menosprezar uma situação evidente de violação de correspondência, um crime cobarde e grave (a proteção conferida à privacidade da correspondência é tão intensa que, mesmo num processo penal, as autoridades que investigam só podem intrometer-se em condições estritas e legalmente definidas – quando isso não acontece, as provas obtidas são nulas). Mas se optarmos por relevar a ignomínia da devassa da correspondência, com tudo o que isso carateriza os seus autores materiais e morais, também acabamos por ficar encabulados por estarmos a depreciar o que de mais grave consta nos mails: Adão Mendes, que foi um péssimo árbitro e se diz adepto do V. Guimarães, supostamente escreve, entre várias baboseiras sabujas, que o Benfica é que manda, escolhe os árbitros e consegue punir aqueles juízes que o prejudicam. Não há, ao contrário do que vezeira o FC Porto, nenhum esquema evidente de corrupção ligada a uma lista de árbitros (também divulgada), antes indícios passíveis de uma investigação que, seja a do Diap ou a do CD, vai quase de certeza acabar arquivada por falta de provas e de nexo de casualidade. Enquanto isso não acontece, há três ideias a reter: o Benfica não se pode escudar no facto do desmemoriado Pedro Guerra não ser (ainda) seu funcionário à data da troca de mails e devia ter reprovado liminarmente o conteúdo dos mesmos; o FC Porto vai aumentar os decibéis e usar todas as armas na próxima época; o Benfica e o FC Porto nunca vão desistir de tentar controlar o sector da arbitragem.

12.06.2017
M M