Vídeo-árbitro e pouca vergonha

As questiúnculas à volta do vídeo-árbitro, que na maior parte dos casos não conseguem disfarçar o oportunismo e a falta de vergonha de quem as promove, tiveram este fim-de-semana um efeito perverso: ajudaram a encapotar as exibições sofríveis, ou nem isso, do Benfica, Sporting e FC Porto; e não permitiram que se fizesse justiça à oposição colocada, respetivamente, pelo Portimonense, Feirense e Chaves. A situação mais evidente aconteceu na Luz, onde a descomplexada equipa algarvia jogou mais do que o suficiente para justificar outro resultado. Vítor Oliveira, Nuno Manta e Luís Castro são de gerações e escolas distintas. Mas todos provaram, com meios escassos, que é possível ser competitivo e enfrentar a ditadura dos "grandes" sem abdicar de um futebol que respeita o jogo e os espectadores, algo tão ou mais importante do que o pontinho roubado com o aparcamento do "autocarro" de dois andares. As diferenças de orçamento e as restantes nuances do futebol português são importantes, sem dúvida. Fazer algo de radical para promover os ajustes e a competitividade já não é uma necessidade, é mesmo uma urgência. Mas essa consciência não pode servir de desculpa esfarrapada a quem anda neste meio há demasiado tempo a vender gato por lebre e a dissimular a sua própria incompetência. Até por isso, importa exaltar aqueles que escolhem outros caminhos e nunca desistiram de se valorizar e instruir. São fáceis de reconhecer (o jogar das suas equipas só pode ser sinónimo de treino de qualidade) e, felizmente, são cada vez em maior número, como já ficara evidente na jornada anterior, quando a máquina de bom futebol que Miguel Cardoso rapidamente montou em Vila do Conde confirmou a dependência excessiva que o Benfica tem relativamente às suas individualidades. O Portimonense também usou o guião que mais problemas parece criar ao tetracampeão, incapaz de conectar com os avançados quando é pressionado na sua primeira fase de construção. A segunda substituição feita por Rui Vitória foi a assunção de que o Benfica não resolveu cabalmente a saída de Lindelof, ficando a dúvida se o recuo de Samaris (que no miolo dá hoje menos garantias do que Filipe Augusto) para central não terá de ser usado mais vezes, principalmente nesta fase de menor fulgor de Pizzi.

A verdade é que em vez de se discutir esta e outras questões relativas ao futebol benfiquista (bem como a substituição de Jesus que mexeu com três posições no Sporting ou a necessidade que Sérgio Conceição teve de lançar André André para estabilizar o FC Porto), até as almas normalmente mais atiladas acabaram arrastadas para a discussão do vídeo-árbitro. E também da linha imaginária que faltou a Fábio Veríssimo para aferir quantos centímetros estava a chuteira de Manafa em fora de jogo. Não é tanto culpa deles, antes daqueles que aproveitam o facto de a televisão e as novas formas de comunicação digital serem, cada vez mais, maravilhas da ciência ao serviço da imbecilidade humana. E, em vez de se realçar que a decisão do vídeo-árbitro ajudou à verdade desportiva, questiona-se é a falta de um artefacto técnico que pode ser utilizado pelos produtores televisivos, mas ainda não foi certificado pela FIFA, o que impede o seu uso na Casa das Seleções. Essa e outras informações importantes têm sido dadas pelo Conselho de Arbitragem, que até divulgou algumas comunicações com o vídeo-arbitro (aqui tenho de dar razão ao Rio Ave, que exige o mesmo cuidado com todos os clubes), mas logo houve quem tentasse descobrir uma euforia exagerada e comprometedora de quem gritou as informações. São teses vindas de gente que desconhece o valor do silêncio. O FC Porto e o Sporting são quem mais parece apostar neste terrorismo comunicacional, mas não nos deixemos enganar: enquanto simula o sossego, o Benfica tenta responder à letra por vias alternativas. Ora, se quisesse mesmo arrancar o futebol da idade média não estaria à procura de outros caminhos para se juntar a ela.

O VAR (Vídeo Assistant Referee) está em fase de testes em Portugal e em vários outros países e tenho a ideia de que é na liga portuguesa que a experiência até está a correr melhor (ainda este fim de semana, um penálti sobre João Mário demorou cinco minutos a ser decidido em Itália). Claro que há ainda um longo caminho pela frente e muitos ajustes serão necessários, até no protocolo imposto pela FIFA. Mas é uma ferramenta importante e acabará por se impor definitivamente. Não o fazer seria um absurdo até do ponto de vista comercial. Os árbitros chegaram ao teto das suas possibilidades e o futebol tem de dar resposta a um mundo moderno em que as novas tecnologias salientam os erros, o que fez aumentar os níveis de intolerância. Por isso, não só defendo o VAR como entendo que o protocolo devia estabelecer que ele é uma entidade superior ao árbitro que está no relvado do estádio. Não fez sentido que um juiz nervoso e cansado, como aconteceu ao iraniano na Taça das Confederações, imponha a sua vontade (e o erro) a quem está tranquilo e com mais informação na sala climatizada.


Cinco estrelas
Messi empurra o Barça

O Barça de Valverde já usou três sistemas diferentes em cinco jogos oficiais, mas Messi não acusa nem as mudanças de posição nem a falta de Neymar: mantém o olfato goleador (triplete frente ao Espanyol e cinco golos em três jornadas). Falta-lhe marcar e brilhar frente à Juventus, a sua besta negra na época passada.

Quatro estrelas
Immobile chegou para o Milan
Na visita à Lazio (ainda sem Nani), ao milionário Milan de pouco lhe serviram os mais de 200 milhões de euros gastos em reforços. Saiu goleado (4-1) e vítima da grande exibição do avançado Immobile, que fez um hat-trick.

Três estrelas
Bayern e a disciplina
O Bayern do tremido Ancelotti só gastou dinheiro em Tolisso (J. Rodriguez foi emprestado), mas Rummenige não muda a política (não gastar mais de 40 milhões num jogador). E deixou avisos sérios a Lewandowski (queria mais reforços) e a Muller (criticou o técnico por jogar pouco).

Duas estrelas
Zidane com os cabelos em pé
Após o comprometedor empate caseiro frente ao Levante, Zidane ficou com os cabelos em pé ao saber que Benzema fica na enfermaria durante um mês . CR7 ainda está castigado e em Bale não dá para confiar. Drama de um campeão que não consegue juntar o BBC há cinco meses e não quis (ou não soube) contratar.

Uma estrela
Triste recorde de De Boer
Frank de Boer ficou com um triste recorde da Premier League: nunca ninguém havia sido despedido após quatro jornadas (o Crystal Palace não pontuou nem marcou um único golo). Triste sina a do técnico holandês, que na época passada só aguentara 14 jornadas à frente do Inter de Milão.





11.09.2017
M M