O canto do Morais

Carlos Barbosa da Cruz

Carlos Barbosa da Cruz

Advogado
Carlos Barbosa da Cruz

A oponibilidade do polegar

No longínquo Abril de 2016, durante um jogo entre o Rio Ave e o Benfica, adeptos do primeiro, decidiram, cada vez que o Renato Sanches tocava na bola, entoar aquele "uh,uh", característico da guturalidade sonora dos macacos.

Levantou-se um processo disciplinar ao Rio Ave e onze meses depois, foi aplicada a este clube, pelo Conselho de Disciplina da Federação, a multa de 536 euros.

Eu, que sou insuspeito de benfiquismo, fiquei revoltado.

Por três razões.

Em primeiro, pelo vagar majestático do Conselho de Disciplina, que leva uma eternidade a julgar um caso de instrução, que não parece complexa.

Em segundo lugar, que haja adeptos que vão ao futebol, com este nível de mentalidade primária e que ainda não perceberam que, sendo o futebol o mais poderoso veículo transversal de interação de massas, a seguir à internet, o racismo é manifestação de absoluta estupidez.

Em terceiro lugar, como é que a uma infração desta gravidade, se aplica uma pena tão leve.
O sinal que se envia para o mundo do futebol é péssimo; dá ideia que este tipo de comportamentos é um pecadilho menor, tolerável e remível a multa simbólica. Só faltará atirar cascas de banana para o campo, como aconteceu com o Daniel Alves, no jogo com o Villareal, mas, atenção, este clube pagou, pela atitude do seu adepto, doze mil euros de multa...

Não posso sequer criticar a qualidade técnica da decisão, porque o artigo 113 do Regulamento de Disciplina, em casos destes, só prevê a punição do clube, em caso de consentimento ou tolerância. Não se tendo provado que o Rio Ave tivesse avalisado essa conduta dos adeptos (há sempre umas testemunhas de conveniência para estes casos), o caso ficou nas águas de bacalhau, que vimos.

Tem de acabar a transigência com estas atitudes e os clubes, cuja massa adepta pratique atos racistas, devam ser castigados severamente. Dir-se-á que os clubes não têm culpa, mas eu acho que, nesta matéria, se lhes impõe um ação pedagógica e, se necessário, medidas repressivas de afastamento dos adeptos que prevariquem.

Se um clube vir o seu campo interditado por uma série de jogos, por via de práticas racistas dos seus adeptos, tenho a certeza que elas serão mais rapidamente erradicadas.
Infelizmente os macacos deste futebol não se resumem ao Canelas; estão também nas bancadas.

05.04.2017
M M