Interrogatório

José Ribeiro

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Editor chefe
José Ribeiro

Sair a jogar ainda é enigma que a Seleção não decifra

1 - O que pretenderia Fernando Santos com a colocação de Nani junto de Ronaldo, deixando André Silva no banco?

Nani não tem ‘peso’ na área, ao contrário do avançado do AC Milan, mas garante uma maior mobilidade ao ataque e fecha bem no espaço central, no momento defensivo. O selecionador tentou, numa primeira fase, ganhar superioridade no eixo do meio-campo com essa escolha (Nani surgia muitas vezes à frente da dupla William/Moutinho). Mas ao mesmo tempo deu ao México uma certa facilidade defensiva, já que apenas um central tinha preocupações de marcação, sobre Ronaldo. O ‘carrossel’ que procurou montar não resultou (a não ser num par de jogadas), principalmente porque a equipa só atacava com ‘bolas longas’.

2 - O que se passou para Portugal não conseguir sair a jogar desde a sua área?

Antes de mais houve inteligência do selecionador mexicano, que percebeu muito bem qual o maior problema de Portugal, o qual já se revela desde há muito: incapacidade para desdobrar posições no corredor central. Assim, com três ‘pressionadores’ nessa zona de construção, mais dois nos corredores, os mexicanos ‘obrigavam’ Portugal a sair através de José Fonte (a pressão fazia-se nesse sentido), apenas o pior dos portugueses para desempenhar tal papel. Deixavam-lhe quase sempre duas opções de passe: Rui Patrício e William, mas se a bola fosse para este, e dada a excessiva proximidade de Moutinho, não tinha saída para a frente, logo voltava a Fonte que batia longo e sem sentido. Portugal nunca decifrou este enigma de como sair a jogar, mas já no Europeu esse problema foi evidente até ao dia em que... Moutinho perdeu lugar no onze. Com ele e William lado a lado, a saída torna-se muito lenta e previsível.

3 - A dupla substituição revelou-se uma boa decisão?

Aos 58 minutos Fernando Santos trocou Moutinho por Adrien e Nani por Gelson. A troca de ‘homens’ podia ter melhorado a dinâmica, só que a mudança de sistema atrofiou a equipa. Passar de 4x4x2 para 4x3x3 (André Gomes saiu do corredor esquerdo e colocou-se ao lado de Adrien, com William a cobrir as costas desta dupla) criou um enorme buraco entre os três avançados e a restante equipa. Portugal passou a dominar o corredor central no momento defensivo, mas ‘desapareceu’ do jogo em termos ofensivos durante quase 25 minutos.

4 - Portugal acabou em cima do México e podia ter feito três golos nos últimos 10 minutos. Como se explica ?

Antes de mais é preciso perceber que o México arriscou tudo num jogo muito pressionante, o que naturalmente provocou enorme desgaste físico. Portugal, com a entrada de André Silva aos 82’, e a recolocação de André Gomes na esquerda, voltou a ter argumentos ofensivos quando a capacidade de recuperação defensiva do adversário já era reduzida. Nesse período, em três transições rápidas, André Silva e Gelson estiveram a centímetros do golo e Cédric acabou mesmo por marcar.

5 - Como foi possível sofrer o empate num pontapé de canto, no último minuto?

Fernando Santos ainda prefere a marcação homem a homem em vez da vigilância à zona. O selecionador mexicano sabia-o (todos sabem). Naquele momento, havia mais mexicanos longe da pequena área, tirando daquela zona os portugueses. Assim, conseguiu provocar o duelo entre José Fonte e Héctor Moreno. O português perdeu o lance porque preocupou-se mais com o homem e menos com a bola.

19.06.2017
M M