Floresta de pernas

Leonor Pinhão

Leonor Pinhão

Jornalista
Leonor Pinhão

É apenas questão de pobreza

E lá seguiu para Marselha o extraordinário Mitroglou a quem os benfiquistas ficam a dever uma impressionante quantidade de momentos sublimes em apenas dois anos de permanência na Luz. O grego que não sabe sorrir e que tanto nos fez sorrir já não mora cá. O seu contributo foi mais do que inestimável para o título de 2015/2016 – foi ele o autor do golo solitário em Alvalade que permitiu ao Benfica ascender à liderança que não mais abandonaria – e, como se não bastasse, foi também ele o autor inspiradíssimo do golo solitário com que o Benfica venceu em Braga ao cair do pano não permitindo ao FC Porto ascender à liderança quando o campeonato de 2016/2017 se aproximava da decisão. A estes dois golos memoráveis somem-se mais 50 tentos assinados pelo grego em 88 jogos e some-se ainda aquele gesto tão seu de cumprimentar os adeptos com um sereníssimo agitar de mão à maneira da rainha de Inglaterra. Ou de outra rainha qualquer. Que rei.

O melhor jogador da última Liga viu-se afastado dos trabalhos da Seleção Nacional porque se terá lesionado no decorrer do jogo do Benfica em Vila do Conde. Vai continuar, assim, o Pizzi sem ver nenhum cartão amarelo durante mais uma semana. Uma coisa destas merece, no mínimo, três assanhadas dúzias de debates televisivos em prol da verdade desportiva convocando-se, para o efeito, todas as forças intelectuais da desgraçada coligação em vigor.

Na noite da passada terça-feira, enquanto o mundo civilizado se angustiava com o lançamento de um míssil norte-coreano que sobrevoou o território do Japão (merecendo este episódio bélico grande destaque nos serviços noticiosos estrangeiros) entretinham-se por cá todas as nossas estações de televisão servindo ao estimado público português altíssimas chinfrineiras sobre a tormentosa questão do vídeo-árbitro que, como é do conhecimento público, se trata de uma ação experimental superiormente autorizada pela UEFA em uns poucos – pouquíssimos – campeonatos da segunda linha europeia. Que a imprensa em Portugal vive uma crise danada é um dado adquirido e, assim sendo, ninguém com o mínimo de bom senso se atreve a sugerir que sairia mais em conta ao patronato manter correspondentes internacionais constantemente a debitar informação em direto do Congresso em Washington ou em direto da mais alta torre de Tóquio ou em direto de qualquer outro lugar exótico do planeta do que enfiar durante três ou quatro horas três ou quatro indivíduos de singela extração nacional num estúdio de televisão à mão de semear e, sob a orientação profissional de um moderador da casa, pô-los sem moderação aos gritos sobre, repita-se, a tormentosa questão do vídeo-árbitro ou outra qualquer do mesmo género. E desta maneira se vão preenchendo diariamente emissões atrás de emissões a preços mais do que acessíveis. E quem quiser saber o que se passa neste mundo pois que sintonize a CNN. No fundo, a questão por cá é só uma e é triste: pobreza.

01.09.2017
M M