Floresta de pernas

Leonor Pinhão

Leonor Pinhão

Jornalista
Leonor Pinhão

Um trabalho bondoso

Os jornalistas sempre foram acusados de tudo e mais alguma coisa desde a era distante em que um sujeito qualquer se lembrou de imprimir os acontecimentos do dia numa folha de papel e de a vender nas ruas a preço cómodo para o bolso do cidadão. Naturalmente, a substância das acusações aos jornalistas foi evoluindo ao ritmo dos tempos não fosse a dita folha de papel o espelho fosco onde a ‘sociedade’ se revê por vezes com gosto e muitas vezes com fúria. Como toda a gente já deu conta, a nossa era, a da suprema tecnologia, vem suprimindo a arcaica função dos jornalistas, a do trabalho de intermediários entre o acontecimento e os leitores.

Não porque a curiosidade jornalística se tenha extinguido por decreto mas porque o advento das redes sociais entregou aos protagonistas dos noticiários uma ferramenta que lhes permite comunicar diretamente com os públicos que pretendem atingir sem terem de passar pelo crivo das perguntas acertadas, das questões incómodas e de uma catrefada de chatices daí decorrentes.

Acontece assim por todo o Mundo. Do homem mais poderoso à face da Terra, o presidente dos Estados Unidos, ao presidente da mais modesta sociedade recreativa ou filatélica ou de amigos do dominó ou da bisca lambida, todos utilizam as plataformas modernas para, sem a intermediação da imprensa, dizerem o que lhes vai na alma. É o século XXI, é o progresso, nada há a obstar de pecaminoso a estas novidades.

Sofrem, no entanto, os jornalistas contemporâneos com as acusações de que, agora, já pouco têm para fazer porque se limitam a transcrever literalmente para as velhas folhas de papel ou para as edições on-line dos seus órgãos de comunicação os ‘posts’ emanados da inspiração, das urgências ou das necessidades práticas das figuras, poderosas ou triviais, que são os protagonistas da nossa atualidade diária e mundial. O que salva os jornalistas portugueses, mormente os jornalistas desportivos, desta inação a que estariam condenados é o bondoso e voluntário trabalho hercúleo – e não "herculeano" – de corrigir o chorrilho de erros ortográficos, erros gramaticais e disparates semânticos dos ‘posts’ do nosso campeão nacional do Facebook antes de os dar à estampa em papel ou num qualquer outro formato oficial. Dizem, no entanto, que até isso vai acabar. Santa vida.

Entretanto, a questão do título nacional de futebol ficou arrumada no último sábado. Parabéns, Benfica!

19.05.2017
M M