Passe e devolução

Nuno Amado

Nuno Amado

Nuno Amado

A Remontada

Digam o que disserem, é uma boa altura para estar vivo. Todos aqueles que gostam de futebol tiveram o privilégio, só na última década, de ver jogar aquela que foi, muito provavelmente, a melhor equipa de futebol que alguma vez existiu, de assistir a uma evolução extraordinária das competências colectivas das equipas em geral e de se deliciar com alguns dos melhores jogadores de sempre da modalidade. Essas mesmas pessoas têm agora o privilégio de poder contar aos vindouros que assistiram também à histórica remontada do Barcelona de Luis Enrique diante do PSG de Unai Emery. Para os que estiveram em Camp Nou, então, é decerto um privilégio único. Essas pessoas estão mais ou menos na mesma situação do parisiense comum a 14 de Julho de 1789: fizeram parte de um acontecimento histórico assinalável.

Poucos seriam os que acreditavam na remontada, e menos ainda os que acreditavam nela depois de um golo do PSG. Até por isso terá sido mais saborosa. Na verdade, o golo dos franceses modificou o jogo. A remontada tem duas partes, e duas explicações distintas. Até ao golo de Cavani, por volta dos 60 minutos de jogo, o Barcelona controlou as incidências da partida de um modo que, na era de Luis Enrique, só se viu pontualmente. Até essa altura, quase só houve jogo nos 30 metros defensivos dos franceses. Claro que o PSG se encolheu, quando poderia ter colocado outro tipo de problemas aos catalães. Mas a ideia com que Luis Enrique partiu para o jogo também explica muito desse comportamento defensivo. O 3-4-3 em losango, que Guardiola usou porfiadamente no seu último ano em Barcelona e que Luis Enrique se recusou sempre a adoptar, é a principal justificação para a inexistência ofensiva dos franceses e para o domínio avassalador dos catalães, nesses primeiros 60 minutos. Mesmo não tendo criado muitas ocasiões de golo, o Barcelona esteve sempre próximo da área adversária, com muitos jogadores próximos entre si, e isso é meio caminho andado para criar situações de finalização e para impedir os contra-ataques adversários. Com o adversário disposto num 3-4-3 em losango, com muita gente na frente e em espaços interiores, o PSG teve muito mais dificuldades em sair de zonas de pressão e, por conseguinte, em ligar as suas jogadas. A obtenção dos três primeiros golos, e a primeira parte da remontada, é indissociável dessa estratégia.

Luis Enrique é um treinador francamente conservador. Ao longo destas épocas à frente do clube, pouco ou nada inovou, em termos tácticos. Manteve-se constantemente fiel a um 4-3-3 muitas vezes demasiado rígido para aquilo que são as características dos seus jogadores, e só este ano tentou introduzir alguma novidade: no processo defensivo, a equipa passou a dispor-se em duas linhas de quatro jogadores, num 4-4-2 clássico. O fracasso dessa experiência advém daquilo a que o próprio sistema obriga. Em 4-4-2 clássico, o Barcelona não consegue pressionar tão alto como precisaria, e vê-se muitas vezes forçado a recuar as suas linhas e a definir zonas de pressão mais baixas. A equipa passa agora menos tempo com a bola, e é, por isso mesmo, muito mais inconsistente. O apagão que se verificou em Paris, e o resultado praticamente irreversível com que saiu da capital francesa, não foi tão surpreendente quanto isso, dadas as debilidades que foi manifestando desde que passou a jogar dessa maneira. Não tenho dúvidas, no entanto, de que isso precipitou as duas decisões seguintes de Luis Enrique: experimentar finalmente o 3-4-3 em losango e anunciar a sua saída do clube no final da época. As duas decisões, creio, libertaram os jogadores. Logo após a humilhação diante do PSG em França, a equipa passou a atacar em 3-4-3 em losango (em processo defensivo, manteve o 4-4-2 clássico), com Sergi Roberto (o lateral direito, no processo defensivo) a ocupar a posição de médio interior direito. Com os jogadores mais próximos uns dos outros, o número de soluções que cada um deles passa a ter quando tem a bola aumenta, e a equipa torna-se mais criativa e imprevisível. Jogadores como Neymar, Messi e Iniesta, sobretudo, só têm a ganhar com isso. Essa criatividade e essa imprevisibilidade, tão raras esta época e tão pouco frequentes na era de Luis Enrique, foram evidentes no último fim-de-semana, frente ao Celta de Vigo. Parecia-me perfeitamente possível, por isso mesmo, que o Barcelona conseguisse, no mínimo, colocar em causa o apuramento do PSG.

O que não se podia de modo algum antever era que, sofrendo um golo, a equipa catalã ainda fosse capaz de se apurar. É aqui que entra a segunda explicação da remontada. Se, até ao terceiro golo catalão, a recuperação dos catalães se explica muito pela opção pelo 3-4-3 em losango e, em parte, pela descompressão que o anúncio da partida de Luis Enrique no final da época terá provocado, o que se passou a seguir não pode ser explicado sem recorrer ao estado anímico dos jogadores. Após o golo parisiense, os catalães perderam o controlo emocional, deixaram de acreditar e, com isso, desconcentraram-se. Podiam facilmente ter sofrido outro golo, entraram em discussões e passaram a tentar resolver os problemas de modo individual. Nos 25 minutos seguintes, pouca lucidez conseguiram ter. Neymar foi dos que, visivelmente, mais afectado ficou. O que é extraordinário é que foi o próprio Neymar quem, por isso mesmo, trouxe de novo a equipa para o jogo. Era talvez o jogador catalão mais intranquilo, aquele em cujo rendimento e concentração o golo de Cavani mais impacto teve, e foi ele que decidiu pegar na bola naquele livre e, com um remate exemplar, devolveu a equipa à eliminatória.

De repente, através de um momento de génio de um jogador que estava a ser, nos últimos minutos, muito prejudicial ao desempenho colectivo, o Barcelona voltou a ter aspirações. Como explicar isto? É preciso reconhecer que, muitas vezes, são os jogadores, e só eles, que decidem o rumo dos jogos. Os treinadores não podem controlar este tipo de coisas. Assim como não podem controlar coisas como aquelas que se passaram a seguir. Faltava pouquíssimo tempo, mas o quinto golo, logo após o quarto, deixou a equipa catalã a apenas um golo de se apurar. E, de repente, a mesma equipa que minutos antes estava destroçada ganhou novo fôlego. A segunda parte da remontada explica-se por aquilo que, em futebol, não se explica e jamais se poderá treinar. As incidências do jogo podem mudar completamente, de um instante para outro, o estado anímico das equipas. Não há táctica que resista, nem ideias repetidas em treino que valham. O mesmo jogador que, depois do golo parisiense, perdeu toda a lucidez e se entregou a individualismos desnecessários, teve a lucidez suficiente para, na última jogada do encontro, com o ponteiro dos segundos a avançar para o fim do tempo complementar, não despejar a bola logo para a área do PSG. Tirou um adversário da frente, avançou mais uns metros, contemporizou e, no momento em que a linha defensiva dos franceses subia para deixar os avançados catalães em posição irregular, fez a bola sobrevoar lentamente a defesa adversária, dando tempo a Sergi Roberto para lá chegar. Num momento em que as emoções estavam à flor da pele, o jogador mais nervoso em campo, uns minutos antes, teve um momento de clarividência inacreditável. Como explicar isto? Ou melhor, como replicar isto em treino? O futebol é um jogo de decisões. Mas é um jogo de decisões tomadas pelos jogadores, em função das circunstâncias específicas de cada jogada, do contexto geral do jogo em causa e do momento anímico em que se encontram. Muitas vezes, é errado imputar as explicações de um resultado ao mérito particular dos treinadores. A primeira parte da remontada pode, de facto, ser explicada pelas estratégias de Luis Enrique e Unai Emery. Mas a segunda parte não. Talvez não faça mal lembrar que não são os treinadores que jogam à bola; são os jogadores.

Nuno Amado é um dos fundadores do blogue www.entredez.blogspot.pt e colabora em www.lateralesquerdo.com.

10.03.2017
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