Interrogatório

Nuno Farinha

Nuno Farinha

Diretor adjunto
Nuno Farinha

O que Fejsa dá e que só ele consegue dar

+ Até que ponto a ausência de Fejsa está a afetar a qualidade geral do futebol do Benfica?

Afeta em dimensão semelhante ao que acontece quando o Real Madrid não tem Casemiro ou quando o FC Porto não tem Danilo. Há jogadores que têm características tão raras e tão específicas, que é nas ausências que se tornam mais notados.

+ Faz sentido concluir que Fejsa é o jogador mais influente da equipa?

É o mais importante para atingir o equilíbrio defensivo. Só a partir dessa condição – de maior segurança e conforto – é possível elaborar, construir e procurar desequilíbrios no último terço sem temer o que possa acontecer após a perda de bola.

+ Não há plano B?

Haver, há. Mas não há nenhum plano B que seja o ideal. Para a ideia preferencial de Rui Vitória – que passa por envolver o maior número possível de jogadores no processo ofensivo, com os laterais muito subidos –, um 6 como Fejsa é uma espécie de seguro de vida. Samaris e Filipe Augusto têm um perfil muito diferente. De tal maneira que o grego até pode ser central e o brasileiro até pode ser 8. Fejsa, esse, é que só pode ser aquilo que é.

+ O que se perdeu desde a lesão de Jardel?

Perdeu-se o central com melhor saída de bola, o mais rápido em campo aberto e aquele que permite ter a linha defensiva mais adiantada. Nesse jogo com o Rio Ave, aliás, o Benfica sofreu o golo (Lisandro, na própria baliza) já sem Jardel em campo. Até esse dia, a época do tetracampeão era 100% vitoriosa: 4 jogos/4 vitórias. Para além dos resultados, há ainda uma questão lateral que não é insignificante: sem Jardel (e também sem Fejsa!), Luisão fica demasiado exposto e à mercê de duelos individuais, num contexto que naturalmente não o favorece.

+ Lisandro López foi substituído nos últimos dois jogos. Sinal de desconfiança?

Se não é, parece. Mas se lembrarmos que foram Samaris e André Almeida a terminar a central com Portimonense e CSKA, respetivamente, essa sensação ainda sai reforçada.

+ Alguns observadores vêm dizendo, nos últimos dois anos, que o maior problema do Benfica de Rui Vitória é a ausência de um processo de jogo. Será?

Não. Nenhum treinador português – a trabalhar em Portugal ou no estrangeiro – venceu tantos jogos nos últimos dois anos quanto Rui Vitória. Só Leonardo Jardim se aproxima e, mesmo assim, tem menos seis vitórias. Um registo destes é impossível de alcançar sem um processo de jogo definido, trabalhado e desenvolvido. Mesmo treinadores de outras nacionalidades que tenham mais de 81 vitórias desde o início de 2015/16… não é fácil descobrir.

+ Houve falhas na construção deste plantel?

Provavelmente, sim. A renovação até estaria facilitada porque se soube demasiado cedo que Ederson, Nélson Semedo e Lindelöf estavam de saída. Houve alguns erros de análise difíceis de entender. Pedro Pereira, por exemplo, estava a trabalhar com o plantel principal desde janeiro e só perto do fecho de mercado se percebeu que ainda não estava preparado para lutar pelo lugar que Nélson Semedo deixou em aberto. O mesmo se passou com Hermes, embora aqui com menor impacto na planificação, porque o titular da época passada (Grimaldo) iria continuar.

+ E Bruno Varela? Está à altura da herança de Ederson?

Não está ele e dificilmente poderia estar alguém, porque Ederson é um caso à parte – talvez já entre os 3 melhores guarda-redes do Mundo. A situação de Bruno Varela é interessante: não é ele o problema do Benfica, mas também ainda não é a solução.

+ O que se deve esperar dos outros dois guarda-redes?

O ideal, para Rui Vitória, seria que se concretizassem duas impossibilidades: no caso de Júlio César, que o tempo andasse para trás; no caso de Svilar, que o tempo andasse para a frente.

+ Jonas foi substituído com jogo empatado (1-1). Porquê?

Só se percebe a substituição se o brasileiro estivesse limitado do ponto de vista físico. Aliás, terá sido também essa a razão por que fez uma exibição tão desinspirada. Na época passada, nunca foi substituído com o jogo empatado. Já agora, o elevado número de lesões também é um tema que merece reflexão: não estarão a ser em demasia?

+ Há razões para alarme?

Não. Na primeira época de Rui Vitória na Luz (2015/16) a equipa chegou a novembro ainda à procura da melhor definição. Estamos em setembro.

14.09.2017
M M