Ângulo inverso

Nuno Santos

Nuno Santos

Nuno Santos

O regresso de Pinto da Costa

A época passada Pinto da Costa falou várias vezes. Parecia que estava ao ataque, na verdade estava a defender-se. Revelou uma fragilidade rara num homem como ele. Contestou, contabilizando, os erros dos árbitros contra o FC Porto, ironizou sobre o poder oculto do Benfica, contestou com razao a Federação. Fez tudo isso num quadro em que a pressão financeira da UEFA já existia e, pior, em que o futebol do clube falhou sempre nos momentos chave. Quando a época terminou despediu sem remorsos Nuno Espírito Santo numa decisão pragmática, que acentuou a ideia que o Porto se estava a transformar num "cemitério" de treinadores.

Hoje, mais do que a saída de Nuno - um bom técnico como se está a ver em Inglaterra - foi a necessidade de mudar de paradigma que ditou a mudança. Nem todos se lembrarão mas o processo da entrada de Sérgio Conceição foi moroso e não era claro, no início, que ia acabar bem.
Pinto da Costa não só atingiu o objectivo como acertou na escolha. Hoje é fácil elogiar Sérgio Conceiçao. Há quatro meses, nao lhe negando qualidades, muitos evidenciavam o seu lado instável, a inexperiencia em clubes grandes, a incapacidade perante a pressão. Conceição está a mostrar que está à altura do desafio. Transformou o futebol da equipa, criou um espírito de grupo que não existia e, sem exagero, pode se dizer que - sem nada ter ganho - o FC Porto é neste momento o principal candidato ao título porque é não só a equipa que melhor joga, como a que tem a atitude competitiva mais impactante.

Pinto da Costa recuperou esse ascendente no campo - que nunca teve nos anos de Lopetegui ou de Nuno - e em paralelo criou, como no passado, mas com as ferramentas do presente, um clima de pressão (ou desestabilização) do seu principal rival - o Benfica. Sim, está a beneficiar dos erros cometidos pelo tetra-campeao e muitos desses erros – nenhum ainda irreparável – nao só não estavam no programa como sao básicos. Nesta velha estratégia de Pinto da Costa nem tem faltado a aliança com o Sporting, embora desta vez valha a pena equacionar que, entre as suas qualidades e defeitos, Bruno de Carvalho, não tem feitio para partenaire como muitos dos seus tristes antecessores.

O Porto joga bem, marca o passo na comunicação e está pacificado internamente. O poder de Pinto da Costa nunca esteve verdadeiramente em causa, mas a forma como Antero Henrique foi substituído e o processo pouco limpo de algumas contratações tinham deixado uma marca que hoje parece, senão apagada, pelo menos muito esbatida.
Sérgio Conceição está a fazer o resto. E é muito.


ZÉ MÁRIO EM CASA

Em Inglaterra Mourinho é Jose (sem acento). Os ingleses têm o bom hábito de tratar cada um pelo nome próprio, mesmo que no estádio, incluindo agora em Old Trafford, a multidão entoe o cântico com o nome composto.
Em Espanha ficou mais conhecido por Mou. Os espanhóis, que ainda hoje falam dele na imprensa desportiva todos os dias, gostam de simplificar nas designações, mesmo que compliquem no resto.

Em Setúbal, onde nasceu e cresceu, José Mourinho, sempre se habituou a ser tratado por Zé ou Zé Mário. Sem perder o ar sério e fechado foi possível descortinar a emoção no seu rosto quando descerrou a placa da Avenida que tem agora o seu nome na zona ribeirinha da cidade.
Volta sempre, volta por ele e pela mulher, pela mãe, por se sentir mais perto do pai que partiu, volta porque as pessoas lhe falam naturalmente na rua. Em Setúbal está em casa. Os filhos, que nunca lá viveram, sentem-se, confessou, também em casa. Talvez Mourinho seja mais português do que muitos pensam.



SÉRGIO OLIVEIRA  - O médio do FC Porto é um dos maiores talentos da sua geração, mas parecia ser um daqueles casos em que o talento não chegaria. A probabilidade de passar ao lado de uma grande ou, ao menos, de uma boa carreira parecia cada vez maior. Dois jogos não resolvem o assunto. Sérgio Oliveira, no entanto, recuperou o seu espaço no FC Porto quando Sérgio Conceição, que o levara para Nantes, o quis no plantel para esta época. Além do talento natural é um jogador com grande intensidade, poder físico e capacidade de remate. Encaixa como uma luva neste FC Porto.

GONÇALO GUEDES - Após seis meses de trevas em Paris, Gonçalo Guedes voltou em grande plano no Valencia mostrando todo o seu potencial. Guedes, que tinha sido decisivo na primeira metade da época passada no Benfica, é um avançado multifuncional : pode jogar nas alas ou no apoio directo ao ponta de lança. Tem, além do mais, uma velocidade invulgar o que, em situações de saída rápida para o ataque, o tornam ainda mais valioso. Se Portugal estiver no Mundial, como todos desejamos, é um jogador a ter em conta.




04.10.2017
M M