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De olhos na bola

Octávio Ribeiro
Octávio Ribeiro Diretor-geral da Cofina

Mais Soares, menos Tiquinho

Chamar Tiquinho a um avançado duro, com quase um metro e noventa, noventa quilos de músculos, é condená-lo ao diminutivo. Em Guimarães, Soares era Soares e ponto. Dava pancada, levava pancada, de forma leal e determinada. Desgastava as defesas. Fazia muitos golos, aquele Soares. Quando chegou ao FC Porto, uma cáfila de pândegos, tomada de afetos, desatou a chamá-lo com o carinhoso trato de Tiquinho. O Soares foi ficando Tiquinho. Com lesões, amuos e menos espírito guerreiro.

Soares é um avançado interessantíssimo. O seu mau feitio faz parte do pacote que o treinador tem de gerir para arrancar desta máquina de guerra os quinze, vinte golos que tem para oferecer em cada campeonato.

Ontem, o jogador que se apresentou na relva foi mais Soares e menos Tiquinho. O FC Porto terá muito a ganhar se Soares assim continuar, guerreiro, façanhudo, abrasivo no contacto físico. Soares é um nome que os defesas devem temer.

Jorge Jesus provou mais uma vez que pensa muito bem futebol. A melhor forma de contrariar uma dupla de avançados, como a que o FC Porto apresenta, é um esquema de três centrais. Como Jesus perdeu, antevê-se para hoje uma saraivada de críticas ao esquema montado. Mas vá lá saber-se como teria corrido o jogo, se Marega pudesse colocar-se entre Coentrão e Mathieu; e Soares, entre Coates e Piccini. Assim, só por uma vez, Soares logrou encontrar as costas de Piccini, beneficiando de um fecho atrasado de Ristovski.

Para uma defesa de três centrais ser ainda mais eficaz, num Sporting em jogos grandes, falta um central com as características certas para assegurar o vértice do meio. Coates não parece talhado para tarefas de líbero. Os preciosos líberos não se inventam de um dia para o outro, como muito bem saberá Jesus.

Para uma defesa de três centrais se tornar uma arma poderosa a eliminar ameaças contrárias e a lançar a equipa em rápido contra-golpe, é necessário que a peça do centro tenha capacidade de liderança, decisão rápida sobre se faz a linha de fora-de-jogo ou se recua para posição de dobra aos outros dois centrais; por fim, tem de assegurar capacidade para colocar a bola rápida na linha média ou avançada, com técnica e visão de jogo.

Estes jogadores são raros, e mais raramente nascem na posição de centrais. Normalmente recuam depois de uma formação a médios. Os melhores portugueses das últimas décadas, como centrais, com capacidade para tornarem super-eficaz um esquema com líbero, foram Fernando Meira e Ricardo Carvalho.

Na defesa do Sporting não há ninguém que sequer se aproxime da classe destes dois excelentes internacionais. Ou melhor, haver, há: joga a meio-campo e dá pelo nome de William Carvalho.

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