Que grande contratação!

O campeonato português arrancou na semana passada e, para os estrangeiros que chegaram a Portugal, o dia da estreia é superimportante e muito especial. Todos querem agradar desde o primeiro minuto da competição aos adeptos do seu novo clube e todos eles sonham ouvir depois daqueles primeiros 90 minutos frases como 'grande contratação que fizemos!'.

Animicamente, para qualquer jogador, seja ele um menino ou experiente, é uma injeção de moral brutal. Iniciar a viagem noutro país com uma grande exibição no primeiro jogo a sério, cair no goto da imprensa e adeptos e começar a ser respeitado imediatamente dentro do balneário é meio caminho andado para que a adaptação ao clube, cidade e país seja rápida e as probabilidades de ter êxito e de triunfar na sua nova equipa aumentam bastante.

Eu, como estrangeiro, estive várias vezes nesta situação e em todas elas os nervos sempre estiveram à flor da pele. Na véspera do jogo a ansiedade nunca me deixou dormir bem. Nos seis clubes que representei lá fora - Atlético Madrid, Marselha, Reggiana, AC Milan, West Ham e Yokohama Flugels - tive quase sempre boas estreias, algumas de nota 10. Por exemplo, no Japão, fiz golo no primeiro jogo fora e também no segundo, em casa. Vencemos ambos os jogos e os japoneses começaram-me a chamar o Maradona da liga japonesa. Outra nota máxima foi na estreia na liga italiana com a Reggiana, antes de contrair a lesão mais grave da minha carreira, nos últimos minutos do jogo. Estava a fazer uma exibição espetacular, tinha feito um golo, a equipa ganhava, e bastaram-me 80 minutos para que os italianos não parassem de gritar o meu nome. Outra nota muito positiva foi na minha estreia em Inglaterra, depois do escândalo de me recusar a jogar contra o Arsenal (tinha uma cláusula no contrato que determinava que eu ficasse com a camisola número 10. Três minutos antes de começar o jogo no Estádio Highbury deram-me a camisola número 16, pensando que eu iria aceitar. Enganaram-se e disse ao presidente do West Ham para jogar ele com aquela camisola). No segundo jogo recebemos o Coventry no nosso Estádio Upton Park, já tinha o número 10 nas costas, e a imprensa inglesa no dia seguinte escreveu: "O português é mesmo craque de camisola 10."

As notas na estreia em Marselha no Estádio Vélodrome e no único jogo que fiz com o Milan no Estádio San Siro foram mais baixas, mas nunca negativas. Incrivelmente, a única nota medíocre que tive numa estreia no estrangeiro foi no clube onde mais triunfei e mais marca deixei: o meu Atlético Madrid, num jogo no mítico Vicente Calderón contra o Sabadel.

Três meses antes tinha jogado a final da Champions, que foi transmitida para meio Mundo. Tinha 21 anos e a pressão mediática podia assustar-me; mas fiz um jogo espetacular e o FC Porto ganhou ao Bayern a Taça dos Campeões Europeus.

Mas naquele dia, o da estreia pelo Atlético, a bola parecia que me queimava os pés. Fui uma sombra de mim mesmo e fiz um dos piores jogos da minha carreira. Depois da partida não ouvi nem li a frase que mais adorava ter ouvido e ler naquele momento: 'Grande contratação fez o Atlético Madrid com o Futre'. E, pior que isto, foram os olhares de desconfiança dos meus companheiros dentro do balneário, que transmitiam: 'És tão bom como dizem ou és um flop?'.

Recordo-me destas histórias porque dois jogadores estrangeiros tiveram uma nota altíssima na sua estreia no campeonato português e isto nunca é fácil. Como amante do futebol, as minhas palavras depois do jogo inaugural do campeonato entre o Aves e Sporting foram estas: "Grande contratação fez o Sporting com o Acuña"; no dia anterior, na Supertaça, e na quarta-feira, depois do jogo entre o Benfica e Braga, disse a mesma frase: "Grande contratação que fez o Benfica com o Seferovic." Com estas linhas, deixo muitos parabéns aos dois.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Grande Dumitrescu

Ao longo da minha carreira joguei com três internacionais romenos. O primeiro foi o Dorin Mateut, na Reggiana, e os outros dois foram o Florin Raducioiu e o llie Dumitrescu, no West Ham. Este último era um fenómeno como jogador. Também atuou em Tottenham e Sevilha, entre outros, e fez três Mundiais com a geração de ouro romena comandada por Hagi. Como pessoa também é um fenómeno. Dumitrescu começou e acabou a carreira no Steaua, clube que treinou em 2010. Quando o Steaua jogava à mesma hora que nós, a primeira chamada que ele fazia depois do duche era para Bucareste, para saber o resultado. Na 3.ª feira, o Sporting recebe o Steaua. Recordei-me do meu amigo, o grande Dumitrescu.

NÓS LÁ FORA
O 'bambino' de ouro

O Milan jogou na quarta-feira em Catânia um particular contra o Betis e perdeu 2-1. Era mais um jogo de preparação onde o resultado era secundário para ambas as equipas. Mas para o André Silva, animicamente seria duro estar outro jogo sem marcar com a camisola rossonera. Quando fez o golo no minuto 75 fiquei feliz por ele. Foi de penálti, mas para um goleador é um golo igual aos outros e a confiança só cresce quando mete a bola no fundo da baliza. O campeonato italiano vai arrancar e, com este golo, o momento goleador do André também pode arrancar. Força 'bambino' de ouro!

CALDEIRADA DA SEMANA
A resposta de Pep

Pep Guardiola contratou para o seu Manchester City neste mercado de verão seis jogadores por um valor de 240 milhões de euros - três dos quais laterais. Imagino o que pensaram todos os treinadores do Mundo quando o espanhol fez estas declarações na sexta-feira sobre os 222 milhões de euros que o PSG pagou por Neymar: "O que se está a passar é insustentável, vai ter de acabar." O Guardiola, pelo que investiu no Barcelona, Bayern Munique e no Manchester City tinha de ser o último treinador do planeta a responder algo assim.


12.08.2017
M M