A luz intensa

Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva

Professor Universitário
Pedro Adão e Silva

Benfica: crise ou crise de sucesso?

Colocando as coisas em perspetiva, há boas razões para estarmos otimistas em relação ao momento do Benfica. No passado recente, com Rui Vitória ao comando, já ultrapassámos situações bem mais exigentes e, numa prova longa, cinco pontos são facilmente recuperáveis. E se olharmos um pouco mais para trás, que dizer? O Benfica vivia uma situação catastrófica financeira e desportivamente. Nos últimos anos, o clube entrou numa dinâmica vitoriosa com poucos paralelos na história recente e esta alicerçou-se num modelo de negócio que abre boas perspetivas.

Vista assim, a minicrise que o clube atravessa é uma crise de sucesso. Mais, se pensarmos que basta o regresso ao onze de um par de jogadores (Fejsa e Jardel à cabeça) e a melhoria de forma de jogadores essenciais para a organização ofensiva (sobretudo Pizzi) para o futebol jogado melhorar substancialmente, é até possível dizer que se trata de um mau momento circunstancial e que é em maio, uma vez mais, que se fazem as contas.

Os problemas surgem quando olhamos para o que o Benfica vem fazendo nos últimos quatro jogos como manifestações de problemas anunciados e que não foram resolvidos em tempo útil. Desde logo, o planeamento da temporada. Se há muito que as saídas de Ederson, Lindelöf e Nélson Semedo eram prováveis, continua a ser pouco claro por que razão não se procurou alternativas que dessem garantias, mesmo que com perfil diferente. A opção é tanto mais estranha quanto os jogadores mais promissores da formação que podiam ser aposta jogam do meio-campo para a frente (a exceção é mesmo Rúben Dias). Se a escolha era desinvestir (o que podia ser racional), surpreende, contudo, que tenham saído tantos jogadores da defesa e não se tenha colmatado as perdas no reduto defensivo, enquanto se foram buscar dois atacantes (Seferovic e Gabriel) para o lugar de um (Mitroglou), sendo que o plantel não tinha particulares carências no ataque.

Mas se os equívocos na preparação da época geram ceticismo, há sinais muito preocupantes que ficam dos últimos jogos. É perturbante que, por três vezes, a equipa se tenha visto em vantagem no marcador e que, a partir desse momento, em lugar de matar os jogos, tenha enveredado por uma circulação de bola em toada lenta e inofensiva que deixou o Benfica à mercê de reviravoltas. Foi assim com Portimonense, CSKA e Boavista. Esta opção parece ser um indício de uma falta de confiança que inquieta.

Pior mesmo só a estranha opção tática de, quando a perder, colocar a equipa a jogar num sistema em que se acumulam atacantes, se parte o meio-campo e se baixam extremos, deixando a equipa sem critério ofensivo. Fica sempre a dúvida sobre o que será pior: saber se este sistema é treinado ou se, pelo contrário, é utilizado sem ser treinado e não passa de um regresso ao tradicional "tudo ao molho e fé em deus".

18.09.2017
M M