A luz intensa

Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva

Professor Universitário
Pedro Adão e Silva

Benfica vender, vencer

O Benfica habitou-se a vencer. São onze títulos em 16 possíveis, no curto espaço de quatro anos. Só que até vencer provoca alguma fadiga. No Jamor, há pouco mais de um mês, com adeptos banhados a chuva, os festejos de um triplete, apesar de tudo, incomum foram, sintomaticamente, tímidos.

Mas agora que o futebol que interessa, centrado nos protagonistas do jogo, regressa, é possível identificar o primeiro dos efeitos do defeso. Se o Benfica acabou a temporada habituado a vencer, corria-se o risco de o clube ficar tolhido pela soberba, convencido que o próximo campeonato estava ganho. Um risco entretanto ultrapassado.

É que a ofensiva comunicacional do Porto, acolitado pelo Sporting, que coloca o Benfica no centro de tudo teve, desde já, consequências. Mobilizou os benfiquistas como se o clube não viesse de uma onda vitoriosa e obriga a direção a inverter o que seria, provavelmente, a sua política comercial. Em lugar da opção pelo "Benfica vender, vender", estratégia que seria seguida de forma a acelerar a diminuição da dívida, teremos um regresso ao lema de sempre, "Benfica vencer, vencer".

Claro está que, para já, vivemos ainda aquele período do defeso no qual o Benfica repete um modelo de negócio eficaz, mas que causa estranheza ao adepto de bancada. Contrata-se uma dúzia de jogadores que nunca jogarão na equipa principal com um triplo propósito.

Demonstrar a mercantilização imparável do negócio do futebol, com contratações que servem apenas para gerar mais valias com vendas futuras de ativos que nunca pisarão o relvado dos clubes que os contratam (Marçal); promover a felicidade entre os homens, realizando desejos alimentados desde criança por alguns rapazes – é sempre comovente ver a emoção com que os jogadores dizem estar a cumprir um sonho, no momento em que são apresentados e vestem, fugazmente, o manto glorioso que nunca envergarão em jogos oficiais (Agra?); e, claro está, aumentar a confiança entre os nossos adversários, que, enquanto fazem contratações cirúrgicas de talentos maduros e firmados, ficam confundidos e têm dificuldade em destrinçar qual é o verdadeiro craque (Seferovic, Chrien, Krovinovic?), no meio de jogadores contratados a obscuros clubes da América do sul (Arango?) e de jogadores obscuros contratados a clubes do nosso campeonato (Patrick?).

Como sempre acontece em julho, percebe-se pouco das contratações feitas pelo Benfica, mas fica já uma certeza. É fundamental que os diretores de comunicação do Porto e Sporting prossigam os seus ataques: enquanto mobilizam os adeptos do Glorioso, vão obrigar a direção a construir um plantel para conquistar o penta. Com menos vendas do que o previsto (fica Nélson!) e com melhores contratações do que aquelas com que sonhávamos. Esperem pelo início do campeonato.

03.07.2017
M M