A luz intensa

Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva

Professor Universitário
Pedro Adão e Silva

Imaginem que era com o Benfica

1. Imaginem que o Benfica vencia um jogo em casa com um penálti discutível, assinalado aos 86 minutos por um árbitro que, nas duas partidas anteriores do clube por ele arbitradas, já havia marcado quatro penáltis, três deles favoráveis. Imaginem ainda que, terminada a partida, Rui Vitória, com candura, afirmava que o árbitro em questão estava "melhor de ano para a ano".

Não é preciso grande imaginação para antecipar o que sucederia. Declarações inflamadas de diretores de comunicação, posts no Facebook de presidentes, adeptos inflamados nas redes sociais e apelos à regeneração do futebol português. Se este cenário se tivesse concretizado, não faltaria quem garantisse que pouco contava o que as equipas jogavam, as vitórias do Benfica deviam-se ao controlo das arbitragens.

Para que conste, tendo em conta o domínio do jogo, o Sporting mereceu vencer o jogo contra o Setúbal (se bem que, no futebol, não se ganhe aos pontos); a jogada decisiva pode bem ser penálti (da mesma forma que há muitos penáltis semelhantes que não são assinalados e chega a ser comovente ouvir os mesmos que declaram, sem hesitações, que a falta sobre Bas Dost não deixa dúvidas e relembrar o que disseram sobre a jogada a papel químico, na temporada passada, sobre Lindelöf em Alvalade). Quanto a Bruno Paixão, a aproximar-se do ocaso da carreira, mesmo tendo melhorado, continua a ser um árbitro sofrível.

Um olhar otimista vislumbra, contudo, virtudes no que aconteceu ao Sporting. Tendo a temporada começado sob o mesmo manto de desconfiança com que terminou o campeonato passado, este episódio em Alvalade pode ter um efeito profilático. Demonstrar que todos os clubes têm razões de queixa e, também, motivos para agradecerem às arbitragens e que, ao contrário do que se quer fazer crer, o futebol português tem feito muitos progressos na regulação, na disciplina, na promoção do jogo e até na qualidade das arbitragens. Falta, contudo, que o ambiente em torno do futebol se torne mais respirável.

Para começo de conversa, era necessário que os diretores de comunicação perdessem protagonismo e não passassem o tempo a desafiar as suspensões que sobre eles incidem; que a direção da Liga cuidasse ativamente de defender o futebol português e que o tempo perdido na comunicação social em análises infindáveis e subjetivas ao desempenho dos árbitros fosse substituído por discussão sobre o jogo jogado. Será pedir muito?

2. O Benfica fez mais do que o suficiente para vencer o jogo contra um Chaves de futebol positivo, com a marca de um treinador de grande, Luís Castro. A mesma vontade de vencer, um sem número de oportunidades de golo e até – tal como contra o Braga – uma dinâmica ofensiva mais interessante do que na temporada transata (muito fruto da participação do avançado ‘3 em 1’ que é Seferovic). Até ver, o Benfica está a jogar mais futebol do que na época passada.

14.08.2017
M M