A luz intensa

Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva

Professor Universitário
Pedro Adão e Silva

O primeiro milho

Há um vencedor da pré-temporada. O Porto de Sérgio Conceição (e aqui o "de" é relevante) mostrou mais dinâmica, agressividade e provou como, muitas vezes, o segredo do sucesso não está na compra desenfreada de jogadores. Ser um clube intervencionado até se pode transformar numa vantagem (não fora o banco muito curto) e uma forma de dosear o ímpeto vendedor/comprador tão ao agrado dos empresários e comissionistas que pululam no mundo do futebol.

Mas mesmo não conhecendo nenhuma estatística fiável, tenho a intuição fundada de que não há nenhuma correlação entre vitórias na pré-temporada e triunfos nas competições que contam. O primeiro milho pode mesmo ser para os pardais e as águias guardam-se para os momentos que contam. Mais, como benfiquista tenho memória de muitos defesos maus que culminaram em campeonatos em maio. Por isso mesmo, o ceticismo que sentem os benfiquistas tem um ângulo positivo: depois do tetra, o Benfica já não parte favorito à conquista de um inédito penta – o que diminui a pressão sobre a equipa.
As boas notícias, no entanto, acabam aqui. O que inquieta na preparação do Benfica 17/18 é que os problemas que se têm manifestado eram todos expectáveis e o único elemento de surpresa é não terem sido resolvidos atempadamente.

Há meses que as saídas de Ederson, Lindelof e Nélson Semedo eram previsíveis e, com tanto planeamento, não se cuidou de colmatar estas saídas e, pior, não se percebe bem qual é a estratégia para reequilibrar o plantel. Aliás, numa equipa que fez um número difícil de fixar de contratações, até ver, só há de facto um reforço (Seferovic), paradoxalmente para uma posição em que havia excesso de opções.

Não se entende, por exemplo, qual é o critério para a reconstrução da solidez defensiva que ofereceu títulos no passado. Luisão continua a ter um posicionamento irrepreensível e é uma voz de comando na organização coletiva. Mas, com mais um ano, é bem diferente ter ao seu lado um central rápido e que sai bem a jogar ou ter um central que parece ter perdido o ritmo (Jardel) e outro que vive invariavelmente desposicionado (Lisandro). Rúben Dias é uma alternativa a Luisão e nunca será parceiro do brasileiro. É um mistério não se ter pensado com tempo num central para jogar à esquerda. Mistério só comparável à ausência atempada de uma solução para lateral-direito e aos ziguezagues no perfil do guarda-redes (tanto quase se contrata um jovem promissor, o que desvaloriza Varela; como depois se anda em busca de alguém para substituir Júlio César). Dir-me-ão, até final de agosto entrarão jogadores e sairão ainda mais. Não vejo, contudo, como será possível, a cinco dias do início da competição, reconstruir a organização defensiva do passado e, com um calendário muito complicado no início da temporada, a reação pode revelar-se tardia.

31.07.2017
M M