A luz intensa

Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva

Professor Universitário
Pedro Adão e Silva

Que caça às bruxas?

O futebol português é um mistério insondável: resultados desportivos de clubes e seleções, nos vários escalões, que nos orgulham e são bem melhores do que a dimensão do país prometia e o número de atletas federados previa e um modelo de negócio de sucesso, que coloca Benfica e FC Porto no topo da lista dos clubes que mais faturam com a venda de jogadores. Mas, depois, estes indicadores de sucesso coexistem com um ambiente degradado entre agentes e com instâncias que gerem e regulam tolhidas pela passividade. Como é que, apesar de tudo, o futebol português vai funcionando torna-se difícil de compreender.

A este propósito, a última magna questão que se tem colocado é a de saber se alguém com preferências clubísticas pode ter responsabilidades em órgãos dirigentes. De facto, num mundo perfeito, teríamos a chefiar a Liga, a Federação ou as estruturas da arbitragem adeptos de futebol devidamente higienizados e sem clube. Mas, felizmente, não existe esse mundo perfeito: quem gosta de futebol gosta, acima de tudo, do seu clube e o futebol não existiria sem paixões clubísticas. Alternativamente, o futebol português, de forma a não beneficiar os três grandes, seria dirigido, apenas, por adeptos do Belenenses, da Académica e do Boavista. Infelizmente, não há adeptos suficientes destes clubes para ocupar todos os lugares. Estamos condenados a ter o futebol português dirigido por benfiquistas, portistas e sportinguistas. Em si, não vem daí mal ao mundo: não vejo por que razão não é possível ter paixão clubística e exercer funções de direção no futebol português com isenção e qualidade.

O mal-estar que se vive hoje no futebol português pouco tem a ver com um eventual fervor clubístico de quem o dirige, manifestado, há anos, em redes sociais. Prende-se, sim, com a passividade com que as estruturas dirigentes assistem à degradação do ambiente em torno do futebol. É possível a um clube redenominar, de forma abjeta, a Liga NOS (patrocinador oficial) como Liga Salazar e nada acontecer? Pode o presidente de um clube afirmar, em entrevista à imprensa económica internacional, que "há fraude e corrupção no mercado de transferência de jogadores" e que "é muito fácil roubar dinheiro a um clube" e a Liga assobiar para o lado ou, ainda, é permitido a alguém com responsabilidades num clube prometer "revelar", supõe-se, transcrições de conversas privadas de um presidente de outro clube e a Liga ficar à espera que isso aconteça para, só depois, agir?

Há de facto uma "caça às bruxas" que a Liga devia fazer: zelar pela imagem do futebol português, preservando-o de comportamentos indecorosos e promíscuos. Mas, para isso, era necessário que demonstrasse metade do vigor e da rapidez que revelou para defender, imagine-se, uma sua diretora-executiva por causa de um post no Facebook em 2012.

11.07.2017
M M