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Pedro Santos Guerreiro

Pedro Santos Guerreiro

Jornalista
Pedro Santos Guerreiro

Violência

Se não tivesse sido filmado, e as imagens difundidas na Internet pelo Jornal de Notícias, teria acontecido alguma coisa? A pergunta não é inocente. Inocentes são os que andaram a levar nas trombas durante os últimos meses sem que aqueles que agora levantam os braços contra o Canelas levantassem sequer os olhos para as sucessivas denúncias de intimidação e violência dentro e fora do campo.

FPF, governo, APAF sabiam todos destas denúncias, que foram sendo noticiadas nos jornais, mas foi preciso um árbitro partir o nariz em três sítios para haver uma tomada firme de posição. Que ao menos a tomem mesmo e este caso não se fique pela admoestação ou pela manobra de diversão.

As imagens da agressão do jogador do Canelas são tão chocantes que puseram o país inteiro a olhar para o que antes ninguém queria ver. Foi tanto assim que, estranhamente, pouca indignação houve para o abuso de força e de poder de um agente da polícia que, pelas costas, tombou um adepto do FC Porto nas imediações da Luz, e depois lhe deu um pontapé na cabeça já com ele imobilizado. O adepto pode ter insultado e irritado o agente da polícia até à medula, toda a história tem um contexto, mas o texto é óbvio: o agente ou passou das marcas ou se passou dos carretos. Mais uma vez, sabemo-lo por haver imagens. Se não fosse filmado, teria o agente sido suspenso para inquérito? Quantas agressões há todas as semanas, dentro e fora do campo, que não são filmadas? Quantas, existindo, não existem depois do murro, da joelhada ou do pontapé de que ninguém fica a saber?

Muitas. É o que se interpreta pelo número reportado de queixas de agressões a árbitros. Não é fácil resolver o problema, pois não é fácil ter um polícia em cada canto - ou uma câmara em cada esquina. Mas se as autoridades se acalmam com isto, isto não pára. E se não sabem o que é isto, a resposta é fácil. Porque desporto não é.

06.04.2017
M M