Record

Contra a corrente

Ribeiro Soares
Ribeiro Soares

Retrocesso no VAR?

Não contávamos voltar tão cedo às questões do Vídeo-Árbitro (VAR) mas, ao tomarmos conhecimento das "recomendações" do Conselho de Arbitragem para aplicação na época que agora se inicia, exige que o façamos.

Todos estamos recordados da análise que os dirigentes máximos do Futebol fizeram no final do recente Campeonato do Mundo, congratulando-se pelos excelentes resultados obtidos na aplicação do VAR, apesar de ter sido utilizado pela primeira vez a esse nível e por muitos Árbitros que não tinham qualquer experiência anterior.

Entre as vantagens assinaladas, foi dado especial destaque ao significativo aumento do número de penaltis assinalados, sendo tal assumido como um considerável avanço na procura da verdade desportiva.

Eis senão quando o Conselho de Arbitragem (CA) resolve fazer um conjunto de "recomendações" aos seus Árbitros, com vista a criar maior uniformidade nos critérios de aplicação das leis.

Pegando na notícia de um jornal diário, entre outras doutas asserções, o CA recomenda que seja evitada "a banalização dos penaltis".

Não se percebe exactamente onde se pretende chegar, mas salta à vista que algum Árbitro que tenha o azar de ser forçado a assinalar, no exacto cumprimento da lei, vários penaltis no mesmo jogo, tem a folha feita, como se costuma dizer.

É lamentável que assim seja até porque, depois da avaliação feita ao VAR no Mundial, tínhamos esperança de ver substancialmente reduzido o número de agarrões nas áreas, nomeadamente em situações de bola parada.

Quanto a nós, pelo contrário, torna-se imperativa a aplicação das regras: "agarrão = penalti", em caso de falta defensiva, com exibição de cartão (amarelo ou vermelho); "agarrão = livre", para falta ofensiva, com eventual exibição de cartão; e, nos casos de mútuo agarrão em que não seja possível definir de forma clara o principal infractor, interrupção do jogo e, eventualmente, amostragem de cartão amarelo a ambos. Será esta a única forma de reduzir a "sinistralidade" (!) dentro das áreas…

Para além deste pormenor, nas restantes recomendações destacadas na notícia citada, há a manifesta intenção de reforçar a autoridade dos Árbitros, designadamente na avaliação subjectiva de algumas faltas: seja pela destrinça da mão na bola/bola na mão, da força excessiva na falta cometida (ou não), reacção a falta marcada, ou no pedido de recurso ao VAR (punido com amarelo), entre outros casos.

Sem termos tido acesso à totalidade das "recomendações" não podemos deixar de reiterar o que deixámos escrito no artigo que aqui publicámos no passado dia 25 de Julho, nomeadamente no que concerne às excessivas demoras (dos guarda-redes, lançamentos laterais, marcação das barreiras e das faltas, substituições e outras).

Da mesma forma, também pelo que entendemos estar a ser uma progressiva aproximação à aplicação da cronometragem exacta, uma vez que o progressivo aumento dos tempos de descontos irá conduzir à inevitabilidade daquela medida.

Aliás, temos assistido a tomadas de posição de vários comentadores televisivos (incluindo antigos árbitros), que cada vez mais vêm assumido posições condizentes com as que aqui temos defendido; entre outras, por exemplo, a penalização dos guarda-redes com 2.º amarelo por reincidência nas perdas de tempo – o que, como referimos, nunca vimos acontecer…

* Antigo colaborador de Record (1991/97), foi o último Director da Gazeta dos Desportos (1995) e escreve segundo a antiga ortografia
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